domingo, 25 de junho de 2017

Daens: um grito de justiça


O filme Daens: um grito de justiça demonstra de maneira crítica e emocionante a deplorável condição de vida e trabalho da população de Aalst, uma pequena cidade da Bélgica. A história decorre durante a última década do século XIX enfatizando o contexto sociopolítico socioeconômico desse período que é marcado pela Revolução Industrial. Neste marco da história mundial o capitalismo industrial já se consolidara como modo de produção vigente na ordem social e continuava a sua marcha expansionista explorando de forma cada vez mais intensa a força de trabalho dos operários. Os operários de uma indústria têxtil da cidade de Aalst viviam em condições subumanas, suas residências não possuíam nem um tipo de saneamento básico, além de não possuírem uma estrutura física adequada para sobreviverem com dignidade.
Os capitalistas industriais, por outro lado, desfrutavam suntuosidade a custa da exploração da mão de obra dos operários assalariados que eram intensamente explorados dentro das unidades fabris durante o processo de produção. Seus salários eram reduzidos por conta da ambição exacerbada dos capitalistas que eram movidos pelo ardente desejo de acumular cada vez mais riqueza através da obtenção de lucros, para isso, portanto, reduziam a valores abaixo da média os salários dos operários. A jornada de trabalho chegava, não raras vezes, há 16 horas diárias, o que debilitava o estado de saúde dos trabalhadores. Não satisfeitos com os lucros que recebiam mediante a implementação da mais valia absoluta, os capitalistas passaram a introduzir a mão de obra de mulheres e crianças ao processo produtivo, já que era uma forma inovadora de lucrar, pois tais forças produtivas aumentavam os lucros capitalistas, uma vez que eram mal remuneradas. Mulheres eram frequentemente abusadas sexualmente pelos capatazes e pelos próprios homens companheiros de trabalho. Jovens e crianças constantemente se acidentavam ao manusear as máquinas, pois não tinham as mesmas habilidades dos adultos. Muitos acidentes eram fatais, o que aumentava significativamente os níveis de mortalidade nas unidades de produção.
O padre Adolf Daens começa a criticar as relações sociais de produção capitalistas através da publicação de artigos nos jornais católicos. Adquiriu, desta forma, admiráveis amigos e indesejáveis inimigos. Passou a ser perseguido pelos industriais que o viam como uma ameaça ao sistema por eles instaurado na ordem social. Além disso, também foi alertado pela a Igreja Católica sobre suas atitudes que, segundo os cardeais, estavam causando um caos social.
O povo passou a apoiá-lo com unhas e dentes como se ele fosse o messias tanto esperado para salvá-lo das garras do capitalismo. Foi eleito pelo povo de Aalst o primeiro deputado do Parlamento a representar as causas da classe trabalhadora.
A morte de uma criança na fábrica foi o estopim para a mobilização e organização dos trabalhadores que lutavam com afinco a favor da instauração de uma nova ordem social em que não houvesse divisão de classes, exploração do trabalho e acumulação da riqueza em consequência da generalização da pobreza.
O padre Daens foi duramente reprimido pela Igreja Católica que o acusava de incitar a violência entre as classes sociais. Mas, fica a indagação que não quer calar: existe violência maior do que a cometida pelos capitalistas contra os operários? Como se pode notar no filme, o trabalho de crianças, mulheres, homens e jovens era rigidamente vigiado e controlado. Crianças morriam de fome e frio, pois não possuíam o mesmo conforto da elite, ou melhor, não possuíam ao mínimo uma casa com condições favoráveis para se viver. Aliás, famílias inteiras morriam de fome e inanição por não possuírem condições financeiras o suficiente para suprir sequer suas necessidades básicas humanas. Será que isso não é considerado pela Igreja Católica violência contra a raça humana? Todas as atrocidades que o sistema capitalista cometeu e ainda continua cometendo contra a classe trabalhadora a ele submetida, são os piores crimes já praticados contra a espécie humana durante toda a história da humanidade. Ao invés de agir a favor dos operários a Igreja Católica se alia a classe dominante, ou seja, a burguesia visando combater o socialismo - que defendia o estabelecimento de uma sociedade sem classes, sem exploração de uns sobre outros e onde a riqueza socialmente produzida pertença a todos - e, sobretudo, manter seu domínio enquanto religião ideologicamente hegemônica. A doutrina social da Igreja foi amplamente difundida através da encíclica papal Rerum Novarum, a qual pregava a harmonia entre as classes fundamentais do modo de produção capitalista: burguesia, dominante, e operária, dominada. Defendia, além disso, a propriedade privada de bens, afinal possuía grandes latifúndios desde o feudalismo e visualizava a reforma social como uma ameaça ao seu poderio e controle social sobre as massas.

Autor: Marcondes Torres.

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