domingo, 26 de julho de 2015

A gente somos "smupids"

SÉRGIO DÁVILA

A gente somos "smupids"

SÉRGIO DÁVILA
SÃO PAULO - No balanço do parquinho de um clube paulistano, olhos colados no celular, a mãe embala a filha sem olhar para ela, soltando frases genéricas como "Legal. Divertido, né?". No apagar das luzes e aos primeiros movimentos do balé "Giselle", do Bolshoi, recentemente em São Paulo, o vovô acha tempo para dar o último "like" numa foto.
Segundo estudo recente da consultoria americana A.T. Kearney, o Brasil é o país com maior porcentagem de pessoas na faixa mais alta de permanência on-line: 51%, ante 37% do segundo colocado, a Nigéria, e 25% dos americanos. Somos um povo conectado/ disponível/ on-line.
Isso tem implicações. Uma delas o canadense Michael Harris chama de "o fim da ausência", no poético título de livro recém-lançado nos EUA ("The End of Absence", Penguin). Estamos o tempo todo não só acessíveis virtualmente como compartilhando tudo o que vivemos. Isso faz com que tenhamos pouco tempo para digerir nossas experiências –para viver.
Na expressão do escritor Douglas Coupland, autor do termo "geração X" e citado no livro, somos "smupids", um neologismo em inglês que junta as palavras "smart" (inteligente) e "stupid" (estúpido). Sabemos cada vez menos de cada vez mais coisas. Mas não sabemos verdadeiramente de nada sem o auxílio da tecnologia. Não absorvemos o conhecimento.
É como na cena do excelente filme "Enquanto Somos Jovens", de Noah Baumbach, atualmente em cartaz em São Paulo, em que os personagens se impõem o desafio de não procurar no Google o nome de um ator, mas de se lembrar naturalmente dele. Leva dias.
Harris se propõe algo parecido: passar um mês desconectado. Além de ler "Guerra e Paz", de Tolstói, versão impressa, ele não chega a nenhuma revelação. Mas conclui que sua geração, aquela com mais de 30 anos, a última a ter feito a transição do analógico para o digital, tem uma obrigação: manter uma visão minimamente crítica do novo mundo.
Não ser "smupid".

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