sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Filhos do inferno

Filhos do inferno

Quando já parece ter feito mais que o suficiente para horrorizar pessoas de todo o mundo, o extremismo islâmico consegue superar novos limiares de abjeção.
As gravações em que fanáticos do Estado Islâmico (EI) preparavam-se para decapitar soldados sírios ou reféns ocidentais correram pelas emissoras de TV em toda parte --e voltam a chamar a atenção poucos dias depois do odioso atentado contra o "Charlie Hebdo".
Chamam a atenção novamente, mas com um acréscimo pavoroso. Divulgam-se agora (como sempre, a autenticidade dos vídeos não está comprovada) cenas em que a execução não mais está entregue às mãos de adultos sanguinários.
Um garoto --terá seus 11 anos-- é quem empunha a pistola com que fuzila dois prisioneiros. A primeira reação do espectador é de incredulidade: ainda há candidez e beleza nos traços daquela criança.
A expressão do rosto, todavia, não ilude. Com segurança implacável, a arma é apontada para os supostos espiões russos; a exemplo de outras produções da Al-Hayat, ramo midiático do EI, o momento da execução não é mostrado.
Será tudo uma farsa, destinada a intimidar os corações mais sensíveis da opinião pública? Não se deve descartar a hipótese. Mas não é incomum, lamentavelmente, que fanáticos e assassinos recrutem crianças para suas tarefas.
Pode-se lembrar o caso da Frente Revolucionária Unida em Serra Leoa, à qual meninas serviram como combatentes e escravas sexuais, nos anos 1990. No Sudão do Sul, prossegue o recrutamento de meninos em campos de refugiados.
Por que ir tão longe, pode-se pensar, quando nas favelas brasileiras o tráfico de drogas alista, à vista de todos, adolescentes para que, de metralhadora em punho, exaltem a falência do Estado?
A resposta não é fácil. Talvez porque estejamos habituados à presença de menores armados cometendo crimes nas ruas do país, mas não à gratuidade do assassinato cometido por cegueira, por fanatismo religioso, num ritual a frio.

A diferença é real. Será idêntico, entretanto, o que há ainda de tocante e delicado nos rostos de cada criança instrumentalizada pelo crime e pelo extremismo. Algoz e vítima se integram numa mesma pessoa, nem sequer formada, mas já pronta para a morte.

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