segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O terror do Estado Islâmico na Síria

Paulo Sérgio Pinheiro

Subestimou-se a consolidação desse grupo terrorista na Síria. Houve países mais centrados na derrubada de Assad que no fim da violência
Faz pouco tempo que o chamado Estado Islâmico, ou EI, fez circular um vídeo com 18 soldados sírios decapitados, mostrando ainda a cabeça decepada de um ativista humanitário norte-americano. Essas cenas são uma amostra do terror que esse grupo emprega para subjugar tanto civis como combatentes em áreas que controlam na Síria.
Homens, mulheres e crianças sírios que fugiram do EI, recentemente entrevistados, relatam que execuções, amputações e açoitamentos em público são rotineiros. A exibição de corpos mutilados e de cabeças espetadas em grades traumatizam ainda mais os sírios, em especial as crianças.
Mulheres e meninas sírias são excluídas da vida pública. Mulheres executadas, por apedrejamento, por terem tido contato não aprovado com o sexo oposto. Regulamentos ditam o que vestir, quem elas podem encontrar e onde trabalhar, submetidas a uma brigada feminina de costumes.
Há casamentos forçados de meninas de 13 anos com combatentes do grupo terrorista muito mais velhos. Mulheres e meninas da etnia yazidi, alvo de abusos terríveis, muitas sequestradas no Iraque em setembro de 2014, levadas para a Síria e vendidas para escravidão sexual nos mercados na província de Al Raqqah, controlada pelo "Estado Islâmico".
As crianças são vítimas, perpetradoras e testemunhas de execuções do Estado Islâmico, que recorre à educação como instrumento de doutrinação para promover uma nova geração de recrutas. Na cidade de Raqqa são obrigadas a assistir a vídeos de execuções em massa de soldados sírios, dessensibilizando-as à violência extrema.
Em áreas que o Estado Islâmico ocupa, com diversas comunidades étnicas e religiosas, estas são forçadas a se converter ou a fugir. Há um padrão de violência contra determinados grupos --cristãos, xiitas e curdos-- para reduzir e controlar a sua presença naquelas áreas.
O EI tem atacado jornalistas e ativistas que tentam comunicar o sofrimento diário dos que vivem sob seu jugo. Muitos foram sequestrados, desaparecidos, torturados e executados. Combatentes foram executados durante seus ataques militares recentes, incluindo as exceções de mais de 200 soldados capturados de base aérea em Al Raqqah e o assassinato de centenas de membros da tribo Sheitat, em Dayr Az-Zawr, em agosto deste ano.
Como se chegou a esse quadro horripilante em que o EI viola sistematicamente os direitos humanos, comete com impunidade crimes de guerra e contra a humanidade?
Esses terroristas não caíram do céu, formaram-se na Síria ou vieram do exterior financiados e armados desde 2011 por vários países e indivíduos da região, aproveitando-se de fronteiras porosas.
A comunidade internacional subestimou a consolidação gradual desse grupo terrorista na Síria e não agiu, muitos países estavam mais centrados na derrubada do governo Bashar al-Assad do que no fim da violência ou na proteção das populações civis.
A Europa não barrou eficazmente a ida de centenas de seus nacionais para a Síria e o Estado Islâmico. O governo sírio poupou até bem pouco tempo o EI de ataques e, por sua vez, contou com o apoio militar de vários países, também com contingentes estrangeiros, com bombardeios aéreos atingindo pesadamente a população civil, numa escalada da guerra civil no seu quarto ano.
A Síria está devastada, 3 milhões de refugiados, 6 milhões de deslocados internamente, numa população de 23 milhões.
A falta de um processo político permitiu que o extremismo e o sectarismo se alastrassem mais. É urgente a comunidade internacional chegar a uma gestão da crise mais eficiente, que leve a uma solução negociada entre o governo sírio e as oposições para o fim do conflito. Caso contrário, haverá o agravamento da desestabilização regional e maior o sofrimento da população.

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