terça-feira, 20 de maio de 2014

O medo do novo

Vladimir Safatle

O filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) costumava dizer que algo novo nunca aparece de uma vez. Pois, quando se nasce, sempre se nasce frágil e titubeante, acostumando-se aos poucos com a situação na qual o recém- -nascido se encontra pela primeira vez.
Por isso, o que é novo, para poder sobreviver, precisa revestir-se por um tempo com a capa do já visto. Assim, as forças que no fundo tudo fazem para deixar as estruturas intocadas não irão destruir o que acabou de nascer. Elas nem sequer perceberão sua singularidade, até que seja tarde demais para reagir.
Essa descrição de Deleuze era, na verdade, uma espécie de conselho que talvez seja a nossa versão contemporânea para as virtudes da prudência. O tipo do conselho de que sempre nos esquecemos quando agimos.
Na maioria das vezes, nossos desejos são maiores do que a nossa capacidade de preparar as nossas ações. Por isso, talvez, tantos projetos de transformação acabem abortados, muitas vezes por interesses de conservação do que já perdeu seu tempo, mas que faz de tudo para esconder dos outros que já está morto.
Acho que tal perspectiva vale, principalmente, para o que se passa agora no campo da política. Estamos em um momento que está apenas começando e exigirá toda nossa criatividade e paciência para a construção de novas experiências políticas.
Alguns gostariam de confiar na espontaneidade da revolta, mas como mostram os desdobramentos da Primavera Árabe no Egito, o entusiasmo por si só não garante a realidade de nossos sonhos.
Outros entendem que a potência do novo sempre traz no seu bojo novas formas de organização, mas permitir que tais novas formas não sejam destruídas em seu nascedouro nem sempre é fácil.
No que diz respeito ao campo das esquerdas, há de se dizer que ainda conseguiremos criar uma esquerda não dirigista, que não seja refém de interesses eleitorais comezinhos travestidos de necessidade histórica, que pare de usar o discurso do medo para esconder sua falta de capacidade de produzir futuros.
Uma esquerda que demonstre à sociedade não os seus conflitos internos ou as suas depressões seguras, mas, sim, sua força criativa. Uma esquerda que entenda como é impossível defender a transformação da experiência democrática na sociedade enquanto continua a ter as piores práticas no interior de certos aparelhos partidários. Pois ninguém confiará em alguém incapaz de fazer na própria casa aquilo que se propõe a fazer na casa dos outros.
Há uma juventude combativa e dinâmica que sabe disso e que aprendeu a não se contentar com pouco.


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