terça-feira, 20 de maio de 2014

O guarda da Porta Marina

Carlos Heitor Cony

RIO DE JANEIRO - Em 24 de agosto de 79 (a.C.), o soldado montava guarda na Porta Marina. As cidades eram muradas e a Porta Marina era a principal porque ficava voltada para o mar. Quando o Vesúvio entrou em erupção, o soldado que estava de plantão viu aquela massa de cinza e fogo avançando sobre a cidade, sobre a porta da qual tomava conta.
Era um rapaz. Acho que o corpo dele carbonizado, feito em pedra, está no Museu Nacional de Nápoles. Como todos os soldados que montavam guarda naquele dia, ele recebera instruções de como agir no caso de aparecer um forasteiro, uma pessoa estranha à cidade, mais ou menos na base do "quem vem lá", pedindo senha ou contrassenha. Como no filme de Orson Welles, equivalia ao "non trespassing", que guarda a casa do cidadão Kane, o SPQR ( Senatus Populusque Romanus).
O soldado não fora preparado para aquilo, enfrentar a massa de fogo e pedra que avançava contra ele, contra a sua porta, contra a sua cidade. O que fazer? Fugir? Para onde? Trair o dever de guardar sua cidadela? Lutar contra aquilo que não sabia o que era?
A intuição e o treino militar fizeram com que cumprisse sua obrigação. Tomou a posição de sentido, protegeu-se com o escudo que os romanos usavam, com as quatro letras que assustavam o mundo. Empunhou a lança para combater o estranho que ameaçava invadir a cidade.
Próxima a Roma, cabeça do mundo, Pompéia era o paraíso de lazer do patriciado romano que apreciava suas termas, seus caldários e frigidários, sua proximidade com o mar, rota obrigatória para Capri e Ischia.

Tudo foi tão rápido que ficou eternizado em pedra, na mesma posição, com o mesmo escudo protegendo o peito, a mesma lança para impedir que o estranho invadisse a cidade. Era uma resistência inútil mas necessária.

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