quinta-feira, 27 de março de 2014

Incertezas mundiais

Kenneth Maxwell

As consequências internacionais da reincorporação da Crimeia pela Rússia começam a se fazer sentir. Os líderes do G7 decidiram cancelar sua participação na conferência de cúpula do G8, que deveria acontecer em junho em Sochi, cidade onde a Rússia sediou recentemente os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de inverno.
Mas a despeito de muito falatório por parte do Ocidente, e de modestas sanções impostas a membros do círculo mais próximo a Putin, a reação geral dos mercados financeiros à crise da Crimeia e à potencial ameaça da Rússia contra a Ucrânia foi surpreendentemente discreta. Porém, a questão mais importante permanece. Será que essa relativa calma é resultado de otimismo infundado ou existem motivos reais para preocupação?
Mohamed El-Erian tentou responder a essa pergunta no "Financial Times". Erian preside o conselho de desenvolvimento mundial do presidente Obama e agora se tornou o principal consultor econômico da Allianz, grupo multinacional alemão de seguros e serviços financeiros. A Allianz controla a Pimco, uma administradora de investimentos especializada em renda fixa sediada na Califórnia. Erian foi presidente-executivo da Pimco até janeiro, quando causou surpresa ao anunciar sua demissão devido a discordâncias com Bill Gross, cofundador da companhia. Erian deixou a Pimco na metade de março.
Erian tem o hábito de deixar empregos antes que a expansão se torne contração. Ele comandou por dois anos a Harvard Management Company, que administra os US$ 32 bilhões em ativos do fundo patrimonial da Universidade Harvard, obtendo retorno de 23% em um desses anos, antes de voltar à Pimco em setembro de 2007, um ano antes que estourasse a crise financeira, que resultou em queda de 27,3% no valor dos ativos de investimento de Harvard.
Erian adverte que a "resposta plácida oculta riscos geopolíticos crescentes". Ele diz que os mercados desconsideraram as preocupações sobre as ambições de Putin da mesma forma que fizeram quanto ao Irã, Iraque, Coreia do Norte, Síria, Turquia, Venezuela e Tailândia, que eles encaram como marginais para a economia mundial, o comércio internacional e as redes financeiras. Eles também parecem acreditar que a situação financeira esteja melhorando na América do Norte e na Europa, e têm fé no poder dos bancos centrais para isolá-los contra riscos políticos e econômicos.
Essa complacência é perigosa. É bem provável que o Ocidente aceite a anexação da Crimeia por Putin, que pode moderar suas ambições na Ucrânia. Mas as tensões geopolíticas estão se acumulando e podem chegar ao ponto de erupção. Erian acredita que os mercados estejam subestimando o risco geopolítico.


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