quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Que diferença faz uma década

Julia Sweig

Na Venezuela, o medo é que governo e oposição percam o controle não das bases, mas dos extremos

Conheci Leopoldo López em Caracas em 2002, semanas após o golpe que derrubou Hugo Chávez por pouco tempo, mas acabou por fortalecê-lo. Falando na velocidade da luz, López exalava energia, intensidade e ansiedade extrema quanto ao futuro de seu país. Falou da economia, do petróleo, da política e dos planos socialistas de Chávez, mas não sobre o envolvimento de Cuba.
Na época, o grande dilema geopolítico da região era como o conflito na Colômbia ia afetá-la. No planejamento de uma viagem de pesquisa aos vizinhos colombianos, uma visita à Venezuela, com sua enorme fronteira e seus então importantes laços comerciais com a Colômbia, poderia me trazer algum insight --ou era o que eu esperava.
Mas os venezuelanos, 12 anos atrás, estavam focados na Venezuela. E, como hoje, o conflito em Caracas chamou a atenção de Washington e da América Latina; condenações do golpe vieram de virtualmente todas as capitais e da OEA. Não fugindo de sua praxe, os EUA se apressaram a saudar o novo governo, composto por pessoas de cujos nomes hoje poucos se lembram.
Mas que diferença faz uma década. A política internacional na América Latina ficou mais nitidamente definida e mais complicada. Embora a Usaid [agência americana de cooperação] ainda lide com programas de "promoção da democracia", dificilmente se poderia imaginar que Washington possua meios para orquestrar protestos na Venezuela. Não se trata de desestabilização como nos tempos do papai, à moda da que derrubou Allende no Chile.
Tendo quase inteiramente expurgado os EUA de suas instituições diplomáticas regionais, os países latino-americanos ainda não descobriram como falar da dinâmica interna uns dos outros sem suscitar alegações de violação de soberania.
O respeito pela "diversidade" que ouvimos na cúpula da Celac no mês passado pode encontrar eco no discurso do movimento LGBT, mas o realismo subjacente é nada menos que kissingeriano. As declarações mornas ou inexistentes emitidas pelas chancelarias da região devolvem a superioridade moral retórica aos EUA, o país menos bem posicionado para contribuir para a "détente" democrática na Venezuela.
Quando ouço Maduro ou Raúl Castro tachando os protestos de "fascistas" e descrevendo os acontecimentos como um golpe em câmara lenta, minha alergia à retórica em alto volume compete com a historiadora que existe em mim e que quer primeiro examinar a alegação com cuidado. Mas, deixando de lado os adjetivos e as referências históricas, no prazo imediato o medo maior é que tanto governo quanto oposição percam o controle não de suas bases, mas dos extremos.
Não é a primeira vez que os venezuelanos levam seu conflito interno ao que parece ser a perigosa beira do precipício, ou que Washington e Havana ficam em lados opostos em relação à Venezuela. Mas, na medida em que há interesse numa Venezuela não violenta, economicamente viável e democrática, e é esse o caso das duas capitais, talvez seja o momento para John Kerry telefonar ao chanceler cubano Bruno Rodríguez. Imagine essa conversa.

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