sábado, 22 de fevereiro de 2014

O gosto da traição

Demétrio Magnoli

A crise ucraniana é um repto à UE, que precisa definir se ainda pretende encarnar o 'sonho europeu'

"A política de não-interferência' da União Europeia e dos EUA tem o gosto óbvio da traição", declarou Volodymyr Ohryzko, ex-ministro do Exterior da Ucrânia, enquanto as forças da polícia de choque usavam munição real para avançar sobre as barricadas na Praça da Independência. Num exaltado apelo por sanções efetivas, Ohryzko formulou a pergunta que atormenta os manifestantes e a maioria do povo ucraniano: "Qual é, agora, o preço do sonho europeu'? Ou devemos perguntar isso ao Kremlin?"
"Europa" nunca foi o nome de um bloco econômico, de um mercado comum ou de uma união monetária. O "sonho europeu" invocado em Kiev nasceu em 1950 como uma dupla negação: não a Hitler (isto é, aos nacionalismos desenfreados que deram à luz as duas grandes guerras do século 20) e não a Stálin (isto é, ao totalitarismo comunista que se espraiava pelo leste europeu no rastro da destruição do pós-guerra). A Europa imaginada por Jean Monnet era um edifício de paz e democracia erguido sobre o alicerce da reconciliação franco-alemã. É nessa Europa que, desafiando a utopia neo-imperial de Vladimir Putin e seu próprio governo, a maioria do povo da Ucrânia quer viver.
A Europa de Monnet evidenciou sua vitalidade na hora da queda do Muro de Berlim, quando ofereceu a saída democrática para os satélites soviéticos situados no lado errado da Cortina de Ferro. O rio das revoluções populares de 1989 desaguou num estuário comum porque Helmut Kohl e François Mitterrand tomaram a decisão política da ampliação da União Europeia (UE). Os ucranianos do oeste e do centro do país (mas não as minorias russófonas do leste e da Crimeia) almejam a mesma oportunidade. Essa maioria traduz "Europa" como um sistema político e econômico aberto, sustentado por instituições e por leis, não como um mercado comum ou uma união monetária. No fim das contas, a crise ucraniana é um repto à UE, que precisa definir se ainda pretende encarnar o "sonho europeu".
A mitologia nacional russa diz que a Ucrânia é o berço da Grande Rússia. O catecismo geopolítico de Moscou diz que, sem a Ucrânia, a Rússia perde sua identidade europeia, retrocedendo à condição de país asiático. O drama ucraniano decorre da circunstância de que a tenaz vontade do russa de preservar sua influência sobre o vizinho contrasta com a tibieza dos sucessores de Kohl e Mitterrand. Sob intensa pressão de Washington, e somente quando começaram a se acumular cadáveres na praça de Kiev, os líderes europeus desenharam os contornos das primeiras sanções diplomáticas --que, aliás, não alcançam o governo russo. Mais uma vez, repetindo a desonrosa história das guerras étnicas na antiga Iugoslávia, quando operou como apêndice dos EUA, a UE revela-se incapaz de agir no calor da crise.
Os ucranianos querem ter a chance de, com um quarto de século de atraso, seguir a vereda dos poloneses, dos tchecos e dos húngaros. A "Europa" de Angela Merkel e François Hollande ofereceu um tratado de comércio e cooperação com a Ucrânia, mas não avançou o sinal da prudência cinzenta, delineando um caminho de acesso do país à própria UE. Na hora decisiva, os líderes europeus parecem sofrer de uma conveniente amnésia. A "Europa" emergiu dos destroços da guerra sob o impulso indispensável do Plano Marshall. Contudo, trágica ironia da história, não foi Bruxelas, mas Moscou que tomou a iniciativa de arquitetar a miniatura de um Plano Marshall para a Ucrânia.

O compromisso incerto obtido ontem não garante nada. Se ceder à vontade do Kremlin, a UE estará confessando que 1989 indica apenas um ponto luminoso apagado na névoa do passado. Que os valores pelos quais se morre em Kiev não valem o preço do gás natural russo. Que o "sonho europeu" não passa de uma invocação decorativa em discursos oficiais. Que, agora, "Europa" é, exclusivamente, o nome de um mercado.

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