quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

No vácuo do Estado

Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - Se há uma característica a que o Estado brasileiro se aferra é a da ineficiência. Não se sabe em qual setor ele é mais conspícuo pela invisibilidade --se no transporte público, na educação, saúde, defesa do ambiente, segurança ou em todos. Neste último, sua atuação quase ectoplásmica tem feito com que, há 40 anos, forças paralelas tentem substituí-lo. E, incrível, para pior.
Começou nos anos 60 com o Esquadrão da Morte, um grupo de policiais que se dedicava a eliminar elementos "indesejáveis" --ou seja, executando bandidos sem maiores formalidades. Confiante na impunidade, o Esquadrão logo se ofereceu para vender segurança a contraventores e traficantes, e, com sua prática em interrogatório e tortura, prestou muitos serviços ao governo militar.
As milícias são outra forma de substituir o Estado. Podem limpar uma comunidade dos traficantes que a escravizam, mas não demoram a se pôr no lugar deles e a monopolizar os serviços locais, do gás ao mototáxi e à gatonet. O mesmo princípio de se sobrepor ao Estado se aplica aos "justiceiros do Flamengo", que capturaram, deixaram nu e imobilizaram o jovem bandido com uma trava de bicicleta.
Os atuais profissionais do protesto também têm suas soluções para a ineficiência do Estado. Se não há escolas, incendeiam-se carros. Se os bancos cobram juros altos, depredam-se orelhões e lixeiras. Se os estádios da Copa são um acinte, saqueiam-se lojas. E, se a polícia avança contra eles, mata-se um inocente.

Há no ar uma tentativa de aliviar os assassinos do cinegrafista Santiago Andrade. Por não estarem de preto, eles não seriam "black blocs". E daí se estavam de cinza? --talvez fosse o seu uniforme nº 2. E daí se nunca leram Godwin ou Proudhon, ou se nem sabem ler? E daí se não estão com as mensalidades do Fundo de Pensão do Black Bloc em dia?

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