quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

País quer fugir do pior do comunismo, diz filósofo britânico

Para Roger Scruton, aproximação com UE é boa para Ucrânia, mas ruim para o bloco
Britânico Roger Scruton comenta a intervenção russa na Ucrânia, o inchaço da UE e a crise de valores na Europa

GUILHERME CELESTINO DE SÃO PAULO

O filosofo britânico Roger Scruton, 69, é formado em Cambridge, especialista em estética e professor visitante nas universidades de St. Andrews e Oxford. Mas foi no debate político e cultural que surgiu como crítico do multiculturalismo, do comunismo e da União Europeia (UE).
Scruton lecionou em 1990 no Jan Hus Educational Foundation na antiga Tchecoslováquia, instituição criada por professores de Oxford em 1980, que distribuía livros, organizava palestras de pensadores ocidentais e era conhecida pela polícia política tcheca como "Centro de Subversão Ideológica".
Em entrevista à Folha, ele fala sobre a crise na Ucrânia, o surgimento de novos atores políticos na Europa e a comparação entre o Tea Party e a extrema-direita europeia.
Folha - Como o senhor vê os protestos recentes em Kiev?
Roger Scruton - Os protestos são contra a dominação russa e as formas ilegais de governo pós-comunista que perpetuam alguns dos piores aspectos do comunismo. O desejo de aderir à UE é o de ser parte do sistema ocidental de Estados e também o desejo de escapar à última das correntes impostas em 1917 [ano da Revolução Russa].
O que acha de os manifestantes desejarem uma maior aproximação com a UE e o afastamento da Rússia?
É bom para a Ucrânia se aproximar da UE, e ruim para a UE, que já está sobrecarregada de países ex-comunistas e suas populações em fuga. O que é preciso é que a Ucrânia seja nacionalmente independente e possa negociar livremente com seus vizinhos, mas que não seja parte da UE. O bloco europeu vai em breve desmoronar sob a pressão de muitos membros e muita liberdade de trânsito entre eles.
Em artigo recente, a revista britânica "Economist" comparou os partidos europeus de extrema direita e anti-UE ao movimento Tea Party nos EUA. O senhor concorda com tal comparação?
É claro que não. Ninguém sabe o que é ser de "extrema direita". Tem nacionalistas na Europa que querem reafirmar a identidade nacional em oposição à UE. Eles são como o Tea Party na procura por uma ordem anterior frente àquilo que veem como perda de identidade e direção. Mas, diferentemente do Tea Party, o interesse deles não é o Estado de direito, mas sim a identidade nacional.
Na França, 10 mil pessoas se reuniram na semana passada contra a flexibilização da lei do aborto e em apoio a novo projeto de lei na Espanha que restringe o aborto. Como explicar esses atos?
A Espanha é um estado em crise cultural, após ter rejeitado sua herança católica, e sem nenhuma ideia do que pôr em seu lugar. Já a manifestação na França é uma resposta ao governo de esquerda que introduziu o casamento gay e a afirmação de que a família é mais importante do que a sociedade sem raízes, exemplificada em todos os sentidos pelo presidente [François] Hollande.

O senhor diz que a liberdade depende de uma rede delicada de instituições. Isso é possível em países de experiência democrática recente, como Rússia e Ucrânia?
As coisas precisam ser construídas de modo gradual, e pessoas boas devem estar preparadas para fazer sacrifícios a fim de criar instituições que durem. O importante é não ter muitas expectativas, e permitir o máximo de espaço à sociedade civil.

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