segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Oriente pós-americano


Pesquisa encomendada pela rede CNN no final do ano passado mostrou elevada rejeição dos americanos à presença militar dos EUA no Afeganistão. Apenas 17% disseram estar de acordo com o prosseguimento da guerra, deflagrada há 12 anos em resposta aos ataques do 11 de Setembro. Em dezembro de 2008, o apoio era de 52%.
Tais números refletem o cansaço da opinião pública dos Estados Unidos com as intervenções no Oriente Médio, cujos resultados, em que pesem vitórias sobre a Al Qaeda, são no mínimo duvidosos.
A previsão propagandística de que as forças americanas seriam capazes de iniciar um processo de democratização na região mostrou-se, como se podia imaginar, inconsistente. A retirada, que já ocorreu no Iraque, em breve também chegará ao território afegão.
Os EUA preparam-se para abandonar o front num momento delicado. Atentados extremistas continuam a ocorrer no Afeganistão e no Iraque; a Síria dilacera-se numa infindável guerra civil; e o Líbano, contaminado pelo clima de radicalização, também se torna palco para a barbárie fundamentalista.
O quadro regional revela-se ainda mais obscuro quando acrescido dos fracassos da Primavera Árabe e das dificuldades que alimentam as relações entre iranianos, sauditas, palestinos e israelenses.
Levanta-se, assim, a perspectiva de um cenário regional "pós-americano", marcado por uma generalização de conflitos e ações terroristas. Sob efeito de um vácuo de poder, em que nenhum interessado mostra disposição ou capacidade para criar consensos e saídas institucionais convincentes, a situação pode se tornar incontrolável.
O argumento, antes de servir de base para nova escalada intervencionista, de resto improvável, sugere que a comunidade internacional e os setores mais equilibrados dos países da região terão que lidar com uma longa instabilidade.
De positivo, os maus resultados da estratégia beligerante norte-americana tendem a propiciar investidas no terreno diplomático --como evidenciado pelas recentes tratativas entre os EUA e o Irã.
Não seriam, todavia, conversações triviais. Elas ocorreriam em meio a um histórico de ódios e ressentimentos acumulados. Talvez seja uma visão pessimista; para a compreensão realista do Oriente Médio, contudo, o ceticismo parece ser componente indispensável.

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