segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Obama, o império e a paz

Luiz Carlos Bresser-Pereira

No acordo com o Irã, o presidente dos EUA teve coragem para contrariar Israel e Arábia Saudita
Os impérios do passado tinham uma única lógica --a do poder militar, porque era através dele que a oligarquia dominante alcançava seus demais objetivos; já um império moderno como o americano possui pelo menos duas lógicas: a lógica econômica da ocupação dos mercados internos dos países em desenvolvimento por suas exportações e por suas multinacionais, e a lógica militar da segurança nacional.
Logo após um candidato progressista, Barack Obama, ter sido eleito presidente dos EUA, escrevi um artigo nesta Folha prevendo que ele conseguiria realizar alguns avanços no plano interno, na política econômica pós-crise financeira global de 2008 e na política social, mas que pouco poderia fazer no campo da política externa, dada a força das duas lógicas imperiais.
Até meados de 2013 minha previsão parecia confirmada. Obama logrou uma grande vitória na política social com seu plano de saúde, o "Obamacare", e, no plano econômico, não obstante a ferrenha oposição republicana, contribuiu para que os EUA afinal saíssem da recessão. Mas no plano externo o presidente parecia paralisado.
A lógica militar de um império é a lógica da guerra, mas, entre os grandes países, essa lógica há muito cedeu à da política internacional --à negociação e às concessões mútuas--, porque o limite do poder imperial é definido pelo poder dos concorrentes. Mas o mesmo não ocorreu para os países da periferia do capitalismo: para eles, sempre que revelassem insubordinação maior, a lógica americana continuou a ser a das guerras, justificadas pela "doutrina da segurança nacional".
Mas, afinal, Obama surpreendeu. Pouco depois da revista "The Economist" publicar uma capa em que aparecia submergindo no mar, ele fez um acordo com a Rússia e com a Síria no qual esta aceitou entregar suas armas químicas para destruição. E, logo em seguida, aproveitando a eleição de um presidente moderado no Irã, estabeleceu as bases para um acordo nuclear com esse país.
É verdade que Obama só pôde agir assim porque --principalmente em relação à Síria-- contou com o apoio da opinião pública americana, que não quer a guerra. Mas este fato não lhe tira o mérito. Para garantir a paz --afinal, o bem maior nas relações internacionais--, precisou de coragem para enfrentar no plano interno os defensores da lógica militar. E não hesitou em enfrentar seus maiores aliados no Oriente Médio: Israel e Arábia Saudita.
Obama sabe que o tempo dos impérios está terminando. Que os custos econômicos do exercício da condição imperial estão se tornando maiores do que os benefícios, porque muitos dos povos antes dominados lograram se constituir ou estão se constituindo em nação e, dessa forma, reunindo forças para enfrentar a dominação.

Naturalmente o império americano continua com sua hegemonia ideológica e com um sistema de instituições financeiras internacionais que serve a seus interesses e aos dos demais países ricos. Mas essa é uma condição de seu poder econômico. É um problema que os países periféricos só lograrão superar se forem capazes de definir estratégias nacionais de desenvolvimento.

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