quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Alquimia síria

É preciso uma dose de comedimento ao avaliar o anúncio de que o primeiro carregamento de armas químicas foi retirado no início desta semana da Síria, país que convive com uma violenta guerra civil desde março de 2011.
Trata-se, é claro, de mais um passo bem-sucedido, sob a supervisão da Organização para a Proibição de Armas Químicas, no sentido de eliminar o arsenal de gases tóxicos do regime comandado pelo ditador Bashar al-Assad.
A iniciativa da comunidade internacional surgiu em resposta a um ataque químico atribuído a forças governistas, com saldo de mais de 1.400 mortos.
Costurado por Rússia e Estados Unidos em setembro do ano passado, o acordo prevê que o governo sírio se desfaça de todas as substâncias químicas de emprego bélico sob seu poder e encerre as atividades de instalações que produzam tais armas até o fim de junho.
Houve um pequeno atraso em relação ao cronograma original, que previa a entrega de 500 toneladas desses materiais até 31 de dezembro. É pouco menos da metade de um arsenal estimado em mais de 1.300 toneladas de gases tóxicos.
O governo Assad alegou que o mau tempo e problemas logísticos causados pelo conflito civil no país prejudicaram o transporte da carga até a cidade portuária de Latakia, onde foi depositada em um navio dinamarquês.
Não é o desrespeito ao prazo inicialmente acordado o fator que causa maior preocupação na região. Tampouco o é, no fundo, a questão do arsenal químico.
Com ou sem essas armas, o sangrento conflito lamentavelmente prossegue em marcha no território sírio. Em março completará três anos, já tendo deixado mais de 100 mil mortos e 2,5 milhões de refugiados no exterior, o que equivale a 10% da população local.
A situação não parece melhorar, e travam-se, atualmente, muitos combates no país. Forças rebeldes moderadas que enfrentam militares leais a Assad também precisam lidar com um crescente número de facções extremistas ligadas à rede terrorista Al Qaeda.
Em Raqqa, única capital de província sem controle do governo, crescem os combates entre o radical Estado Islâmico do Iraque e do Levante --que hoje comanda a cidade-- e alas rebeldes conservadoras. Desde sexta-feira, mais de cem pessoas foram mortas na região.

Questões como essa têm de ser enfrentadas durante a nova conferência internacional de paz, marcada para 22 de janeiro, para que seja possível vislumbrar uma maneira de pôr fim à violência na Síria.

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