terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A lição de Ariel Sharon

João Pereira Coutinho


Nenhum outro premiê israelense fez na Faixa de Gaza exatamente aquilo que os palestinos reclamavam
Morre Ariel Sharon. Há festejos na Faixa de Gaza. Fato: não esperava que os palestinos chorassem a morte de um homem que fez da segurança de Israel a sua eterna paixão.
Primeiro, combatendo nas principais guerras que o país travou desde 1948. E, depois, elegendo a Organização para a Libertação da Palestina (e Arafat) como inimigo número um --um ódio pessoal que o levou à invasão do Líbano em 1982 e aos massacres nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. Sharon não ordenou essas matanças de palestinos?
Novo fato. Mas não é preciso ser um gênio militar para perceber que, depois do assassinato de Bashir Gemayel, o líder dos cristãos do Líbano, haveria vingança pesada dos Falangistas sobre os palestinos que eles consideravam responsáveis pelo homicídio. Fechar os olhos a essas atrocidades é também uma forma de cumplicidade lamentável.
Acontece que os festejos em Gaza soam estranho quando nenhum outro premiê israelense fez no território exatamente aquilo que os palestinos reclamavam: retirada unilateral do exército de Israel.
Hoje, quando se fala dos "territórios ocupados", a Cisjordânia e os Montes Golã (na Síria) fazem parte do pacote. Mas a Faixa de Gaza, desde 2005, pertence aos palestinos porque Ariel Sharon decidiu terminar com uma ocupação de quase 40 anos, desmantelando milhares de colonos judeus na região.
Os motivos não foram beneméritos. A ocupação representava um desgaste internacional para Israel. Mas a principal razão era pragmática: Sharon entendeu que o "processo de paz" chegara ao fim.
Cinco anos antes, em Camp David, Israel estava disposto a concessões históricas impensáveis: o reconhecimento de um Estado palestino independente em Gaza e na Cisjordânia; a divisão de Jerusalém como capital dos dois Estados; e até o retorno de uma parcela de refugiados palestinos a Israel e compensações financeiras para os restantes (que viveriam, logicamente, no futuro Estado palestino).
Arafat, em gesto dificilmente classificável, exigiu o retorno de todos os refugiados a Israel (4 milhões), uma forma elegante de convidar o estado judaico a suicidar-se demograficamente (Israel tem uma população de 8 milhões, com 6 milhões de judeus e 1,5 milhões de árabes).
Depois do fracasso de Camp David, seguiu-se Ariel Sharon --uma escolha democrática que representa bem a desilusão da sociedade israelense com as negociações de paz.
E Sharon limitou-se a seguir a velha recomendação do general Yigal Alon, que depois da Guerra dos Seis Dias de 1967 alertara para os perigos de uma ocupação sem fim em Gaza e na Cisjordânia. Melhor seria controlar os territórios (de fora) sem governar milhões de palestinos hostis (por dentro). Ninguém o escutou. Só Sharon, 40 anos depois.
Dito e feito: Israel se retira de Gaza em 2005 e, no ano seguinte, o Hamas vence as eleições no território. Na imprensa "mainstream", o Hamas é apresentado como um grupo que luta contra a ocupação israelense. É uma forma de ver as coisas.
Outra é dizer simplesmente que se trata de um grupo terrorista que nega a existência da "entidade sionista"; que passou a usar Gaza como rampa de lançamento de "rockets" para o interior de Israel a partir de 2005; e que, também a partir desse ano, elegeu a Autoridade Palestina da Cisjordânia como "inimiga" fraternal. Tudo por causa da "traição" de Mahmoud Abbas em dialogar com Israel.
Hoje, não existe mais uma Palestina. Existem, pelo menos, duas: uma em Gaza, outra na Cisjordânia. Falar de um Estado palestino independente é uma piada de mau gosto quando os próprios palestinos não se entendem entre si.
Contas feitas, o que fica na morte de Sharon? Sim, um legado militar com páginas notáveis (lembrar a campanha do Sinai em 1967 contra o Egito) e as páginas negras (os massacres de Sabra e Shatila).
Mas, depois da retirada unilateral de Gaza, Sharon mostrou ao mundo que o conflito israelense-palestino não é territorial; é puramente ideológico. E que é inútil trocar terra por paz quando o interlocutor nem sequer reconhece o nosso direito à existência.

Os festejos de Gaza expressam isso mesmo: os palestinianos já têm um território autônomo, que poderia ser a base de um futuro Estado palestino. Mas o problema central continua o mesmo: o fato de os judeus também terem o seu Estado ali ao lado.

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