quarta-feira, 17 de julho de 2013

Milagre

ANTONIO DELFIM NETTO
Há muitos anos, quando o Brasil era capaz de humor pedagógico exercido por um inesquecível Chico Anísio, havia uma personagem na escolinha do professor Raimundo que afirmava: "quero um vestido Dior e uma viagem a Paris". O professor então lhe perguntava: "mas se quer por que não tem"? E ela respondia: "me falta só uma coisinha, o dinheiro".
É essa questão que parece estar na cabeça da "manada irracional" que, segundo o presidente da Confederação Nacional dos Municípios, levou alguns prefeitos a vaiarem a presidente Dilma Rousseff, depois de terem recebido 15,7 bilhões de reais de repasses para melhorar basicamente os serviços de saúde e 4,7 bilhões para a construção de 135 mil unidades do programa Minha Casa Minha Vida.
Ela não se alterou, mas não deixou por menos. Disse à manada, "Vocês são prefeitos como eu sou presidenta. Vocês sabem que não tem milagre. Quem falar que tem milagre na gestão pública sabe que não é verdade".
Foi confortador ouvi-la, porque às vezes o governo e o Congresso parecem transacionar com milagres. O pânico revelado na tumultuada resposta de ambos à "voz das ruas" mostrou que em situação de estresse eles também podem confundir "desejos" com "recursos", com sérias consequências sobre o equilíbrio econômico sem, ao fim, corrigir os desequilíbrios sociais.
A enfática declaração de Dilma de que não há milagre na gestão resume-se no seguinte: só podem ser distribuídos e utilizados internamente os recursos que foram produzidos (PIB), somados aos eventuais ganhos na relação de troca e ao que tomamos emprestado no exterior, que dependem, respectivamente, da conjuntura e da paciência dos credores.
Entre 2003 e 2010, a renda interna cresceu mais do que o PIB (4,1%) devido à melhoria da relação de troca. Entre 2011 e 2013, o PIB crescerá talvez, 2,0% (2,5% para 2013) e a renda ainda menos, pela sua inversão. É urgente, portanto, cooptar o Congresso para uma agenda positiva de reformas microeconômicas que aumentem a produtividade total da economia. Descoordenado como está, sua propensão à demagogia nas vésperas da eleição poderá levá-lo a continuar a namorar com "milagres"...
A volta ao crescimento está ligada à expansão dos investimentos privados em infraestrutura e à maturação das reformas no campo da energia e nos portos. A primeira depende de leilões bem projetados, apoiados em minuciosos "planos de trabalho" que estimulem a competição e determinem a menor taxa de retorno. Isso exige a superação da pretensão de saber que alimenta o amadorismo que os tem dominado. A segunda vai ocorrer em dois ou três anos.

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