quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Inflação


Antonio Delfim Netto

A taxa de inflação é como um "radiador" que dissipa o calor produzido pela inércia. Exemplificando sem exaurir:
1º) Por todos os atritos naturalmente produzidos pela demora necessária para ajustar as demandas setoriais (choques de oferta, mudança de hábitos) com as respectivas ofertas;
2º) Pela deficiência da infraestrutura;
3º) Pelos obstáculos institucionais e políticos que retardam os ajustes da oferta dos insumos básicos;
4º) Pelos exageros cometidos pelo poder incumbente quando perde o senso e se entrega ao voluntarismo populista, que ignora as restrições físicas impostas pelas identidades da contabilidade nacional;
5º) Pelo próprio governo quando tenta proteger sua receita pela indexação automática de impostos, preços, tarifas ou salários da própria inflação que está criando;
6º) Pelo estímulo ao crédito quando não há mais fatores de produção disponíveis em proporção adequada e a acumulação do deficit em conta-corrente não permite importá-los;
7º) Quando os salários reais crescem acima da produtividade física do trabalho.
A taxa de inflação é, por-tanto, um indicador duvidoso da demanda global. Ela é, simultaneamente, causa e efeito da redistribuição das rendas. No fundo, é a imagem invertida no espelho do nível de produtividade da economia que cresce à medida que se reduzem os mesmos "atritos" que a produzem.
A redução da taxa de inflação brasileira -que, há oito anos, permanece em torno de 5,2% ao ano e que, como em todos os países com "metas inflacionárias" com bandas, namora o seu teto- não é, obviamente, uma tarefa apenas do BC. É uma missão de todo o governo, que envolve o aumento da sua eficiência apoiada em reformas microeconômicas bem "focadas" que precisam do apoio da sociedade.
Por exemplo, um mercado de trabalho bem organizado, que respeita os direitos constitucionais dos trabalhadores e onde a livre negociação salarial dentro da empresa (e não do setor), sob as vistas de uma comissão de fábrica eleita e com representatividade, pretere os efeitos legais acumulados pelo corporativismo ao longo dos anos, é poderoso instrumento para o aumento da "produtividade" do trabalho e, ao mesmo tempo, a redução dos atritos que se dissipam como pressões inflacionárias.
Por outro lado, quando há um desajuste entre a disponibilidade da mão de obra e suas habilidades em relação às necessidades da economia, é extremamente custoso corrigi-lo cortando a demanda global pela política monetária. São necessárias medidas estruturais que aumentem a oferta e a qualidade da mão de obra: rápida educação profissional e imigração!

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