quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Governo de Nixon foi um poço de contradições


Análise

'Presidente de Watergate', que faria 100 anos hoje, foi 'falcão' que encerrou guerra e anticomunista que reatou com a China

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA

É comum a elaboração de listas dos melhores presidentes da história dos EUA por historiadores, jornalistas ou pelo público geral. Nelas, o nome de Richard Nixon, cujo centenário de nascimento ocorre hoje, nunca aparece entre os dez primeiros.
No entanto, poucos dos que em geral ficam no topo entre os 44 homens que ocuparam o cargo fizeram tanto quanto ele, em termos de políticas públicas de consequências duradouras e benéficas para o país e de atos de Estado importantes para a história mundial.
Apesar de suas realizações, o legado de Nixon estará sempre maculado pelo escândalo de Watergate, que o forçou a ser o primeiro (e até agora único) presidente americano a renunciar ao posto (para evitar um impeachment que era absolutamente certo).
Nixon foi um personagem shakespeariano. Não por acaso motivou filmes, peças e até uma ópera. Sua gestão foi um poço de contradições.
"Falcão" histórico, pôs fim à Guerra do Vietnã, que ceifava a vida de 300 americanos por dia quando ele assumiu o poder em 1969, e acabou com o serviço militar obrigatório em seu país.
Anticomunista histérico, estabeleceu relações diplomáticas entre EUA e China comunista; com isso a referendou como integrante da comunidade internacional e acelerou um processo de "détente" com a União Soviética.
Antissemita instintivo, fez de um judeu, o secretário de Estado Henry Kissinger, a pessoa mais importante de seu governo, ao final até mais relevante que ele próprio.
Beneficiário de doações políticas de empresas dos setores econômicos mais depredadores do ambiente, criou a Agência de Proteção ao Ambiente e sancionou uma revolucionária legislação de combate à poluição.
Associado a grupos políticos que tentavam boicotar o avanço dos direitos civis para os negros, criou e implantou as primeiras leis de ação afirmativa e garantiu o fim da segregação racial em escolas públicas.
Nixon viu o homem chegar à Lua, aprovou o programa Apollo-Soyuz, que colocou americanos e soviéticos em cooperação científica e terminou com a corrida espacial.
Seu projeto de assistência médica à população era quase tão inclusivo quanto o de Barack Obama e só não foi implantado porque os democratas na oposição, liderados por Edward Kennedy, o derrotaram por quererem outro, que fosse universal.
Mas a personalidade paranoide, autoritária, obsessiva de Nixon o levou ao desastre político de Watergate e obscureceu sua biografia.
Candidato à reeleição em 1972, era o favorito absoluto contra o frágil candidato democrata, George McGovern.
Nada impediria sua vitória, que de fato ocorreu com uma consagradora avalanche de votos (60,6% dos populares, a quarta maior porcentagem de todos os tempos, e 520 dos 537 eleitorais).
Apesar de todos saberem que se tratava de uma "barbada", que o redimiria definitivamente das derrotas eleitorais de 1960 (para a Presidência, contra John Kennedy) e 1962 (para o governo da Califórnia, contra Pat Brown), Nixon autorizou a execução de atos ilegais para assegurar sua vitória.
Entre eles, a invasão do diretório nacional do Partido Democrata no edifício Watergate, onde esperava encontrar documentos comprometedores contra o adversário McGovern, e contribuições de campanha irregulares.
Os invasores de Watergate foram presos, doações ilegais, descobertas e reveladas ao público. Para piorar, Nixon agiu para encobrir os crimes, destruir provas que o ligassem a eles e obstruir a Justiça.
Resultado: processo de impeachment, renúncia, humilhação pública, da qual só conseguiu se recuperar, e apenas parcialmente, muito tempo depois.
* CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA* é editor da revista "Política Externa"

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