domingo, 25 de novembro de 2012

De Golbery a Dirceu


Diplomacia

A política brasileira nos telegramas dos EUA

RESUMO Telegramas diplomáticos revelam cenas da relação Brasil-EUA: o apoio de Kissinger a Golbery, as conexões de José Dirceu com Washington, o último jantar de Collor como presidente com diplomatas norte-americanos, a três dias do impeachment, e as relações de Marta Suplicy com a embaixadora Donna Hrinak.
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RUBENS VALENTE

O GOVERNO DOS EUA liberou para consulta, em setembro, um lote de telegramas diplomáticos sigilosos que descrevem encontros de seus representantes com políticos brasileiros. Os telegramas trazem detalhes de diferentes momentos históricos, da abertura durante a ditadura militar (1964-85) à aproximação do PT com o Partido Republicano, em 2002, quando Lula chegava ao poder.
Leia abaixo duas dessas histórias e, em folha.com/ilustrissima, telegramas sobre encontros de diplomatas dos EUA com Marta Suplicy, Fernando Collor de Mello e dom Paulo Evaristo Arns.
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BRASÍLIA, 1976. "Estou lisonjeado por você ter vindo", agradeceu o general Golbery do Couto e Silva a Henry Kissinger, no Palácio do Planalto. Foi o primeiro encontro no Brasil entre o conspirador do golpe de 64, criador do SNI (Serviço Nacional de Informações) e homem forte do ditador Ernesto Geisel (1974-1979), e o norte-americano, principal executor da política externa dos EUA no cargo de secretário de Estado dos EUA do governo Gerald Ford (1974-1977).
Aquela era a primeira viagem de Kissinger ao Brasil desde 1962. Ele disse se recordar dos "estudantes fora de controle". Imaginando uma ditadura de esquerda, do tipo "peronista", ele atacou: "[o presidente João] Goulart, eu acho, ou era um homem perigoso ou lhe faltava compreensão".
À vontade, Golbery fez a primeira confidência da manhã: "Nós estávamos esperando. Nós queríamos manter a presidência de Goulart até o último instante". Kissinger confortou-o: "Eu fui solidário com o que vocês fizeram".
Golbery entrou no ponto central do que seriam suas preocupações. Admitiu que, "numa primeira etapa", o Brasil viveu sob uma "ditadura militar". Mas isso seria passado. Agora ele diria que o país atravessava um período tão somente "autoritário". Do qual enfrentava "problemas" para sair.
Kissinger concordou: "Evolução sem caos, esse é o problema de fato". Golbery contemporizou: "Nós não podemos abrir o processo muito rapidamente. Nós temos uma política gradualista [de abertura]".
O secretário de Estado deu então uma garantia e uma orientação. "Bem, vocês não receberão nenhuma pressão dos EUA. Cabe a vocês decidir a taxa de velocidade com a qual vão se movimentar".
Golbery respondeu que o país estava sob "alguma pressão, por causa da imagem do país mundo afora". A reunião ocorreu meses após as mortes do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975) e do operário Manoel Fiel Filho (1927-1976) nos porões da ditadura.
Kissinger novamente tranquilizou o general: "É claro, será bom para você se moverem naquela direção [abertura política], mas a taxa pela qual vocês se movem é uma decisão do Brasil". O maior aliado brasileiro deixou assim clara a sua tolerância com a ditadura. O país viveu mais nove anos sob o jugo militar até a eleição de Tancredo Neves, em 1985.
Autor de "Kissinger e o Brasil" (Zahar), o professor da FGV e colunista da Folha Matias Spektor disse que os cinco telegramas recém-liberados pelos EUA sobre conversas de Kissinger são inéditos, incluindo o que cita Golbery. Dessa conversa, só era conhecida a versão brasileira.
SÃO PAULO, 2002. No começo da campanha presidencial, o PT tinha um problema: deixar claro que não daria uma guinada à esquerda na política econômica -um analista do banco Goldman Sachs chegou a criar um "lulômetro" para medir os riscos de uma possível vitória de Lula. O PT precisava urgentemente "acalmar os mercados".
Como parte desse esforço, José Dirceu, então coordenador da campanha, foi a um almoço secreto com a embaixadora dos EUA, Donna Hrinak, no escritório do empresário Mario Garnero, do grupo Brasilinvest. Dirceu chegou a bordo do helicóptero privado de Garnero ao 21º andar da sede do banco, na avenida Faria Lima.
A cena deixou a embaixadora confusa, como ela registrou: "É uma imagem muito diferente para um partido de 'trabalhadores'". A própria identidade do responsável pelo encontro a impressionou. "Mario Garnero é um dos principais líderes empresariais do Brasil e poderia parecer uma escolha estranha ser alguém capaz de intermediar encontros para o PT."
Garnero e Lula se conheceram na época nas greves dos operários do ABC, quando o banqueiro liderava a associação das montadoras de veículos. Desde então construíram "um relacionamento de respeito mútuo", anotou Hrinak.
O conteúdo do encontro entre Dirceu e Donna ficou sob sigilo por uma década, até aparecer no telegrama agora liberado pelos EUA. Garnero contou à Folha que os participantes queriam a imprensa longe. "Acho que seria constrangedor para todos se alguém soubesse, poderia atrapalhar a conversa. O pessoal do PT manteve mesmo o sigilo", disse o banqueiro. Ele leu as seis páginas do telegrama e considerou o conteúdo extremamente fiel à conversa.
O encontro, segundo Garnero, ocorreu a pedido de um amigo de Dirceu, Luiz Carlos Gaspar. Na reunião, segundo Hrinak registrou no telegrama, Dirceu considerou o almoço uma oportunidade para reafirmar que "o PT está pronto para formar um governo nacional maduro sem um viés anti-EUA". E reconheceu: "Dirceu comentou que, olhando em retrospecto, foi uma sorte o PT ter perdido a campanha presidencial de 1989, porque na época não tinha a necessária experiência para governar."
A embaixadora quis saber "quem falava pelo PT", pois um deputado do partido havia comparado o presidente George W. Bush com "Átila, o Huno", o que não seria de modo algum "um sinal de interesse em manter boas relações com os EUA". Os dois não mencionaram o nome do petista, mas se trata de Paulo Delgado (PT-MG).
Dirceu desqualificou a crítica de Delgado a Bush: "Vocês não têm também seus 'malucos' nos partidos políticos americanos?".
Donna cobrou informações de que o PT seria um dos autores da ideia de um plebiscito sobre a Alca (Área de Livre Comércio das Américas, que os EUA tentavam implantar), organizado pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Dirceu afastou a dúvida: "Há pouco tempo para educar os eleitores sobre o assunto".
As conversas entre petistas e agentes do governo dos EUA se estenderam pelos dias seguintes. Garnero se incumbiu de entregar cartas pessoais de Dirceu a figuras proeminentes dos EUA, como Dick Chenney, o vice-presidente, e Ronald Evans, secretário do Departamento de Comércio. Em duas semanas, o PT divulgaria a Carta ao Povo Brasileiro, que, ao falar "em crescimento econômico com estabilidade e responsabilidade social", acalmou os mercados.
Dez anos depois, Dirceu disse à Folha, por meio de sua assessoria: "O objetivo da reunião foi buscar uma aproximação com o Partido Republicano dos EUA, com o qual o PT não mantinha nenhuma relação. Como desdobramento daquele encontro, ele [Dirceu] programou uma viagem aos Estados Unidos para apresentar o PT e as propostas de governo do então candidato Lula à Presidência a um grupo de empresários, banqueiros e representantes do governo do então presidente George W. Bush. Garnero era interlocutor frequente dos republicanos. O ex-ministro não tem lembrança de como foi o encontro com a embaixadora".
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Kissinger deu uma garantia e uma orientação. "Bem, vocês não receberão nenhuma pressão dos EUA. Cabe a vocês decidir a taxa de velocidade com a qual vão se movimentar"
Dez anos depois, Dirceu disse: "O objetivo da reunião foi buscar uma aproximação com o Partido Republicano dos EUA, com o qual o PT não mantinha nenhuma relação"

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