quarta-feira, 4 de julho de 2012

Morte no guindaste


Editoriais
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A cena, relatada por Samy Adghirni no caderno "Ilustríssima" do domingo passado, é de uma brevidade desconcertante.
"Homens de capuz preto", escreve o correspondente no Irã, "acomodam cada um dos condenados no alto dos patíbulos, improvisados na caçamba dos caminhões com tambores de combustível".
Cada tambor é derrubado com um pontapé. Imediatamente, guindastes içam as cordas que amarravam os condenados pelo pescoço.
"Os corpos suspensos esboçam um trêmulo balançar de pernas, enquanto mãos e dedos se retorcem devagar." A agonia dura cerca de um minuto, "até que os corpos ficam enrijecidos, com a cabeça inclinada num ângulo anormal".
Termina mais um enforcamento público no Irã dos aiatolás. Não apenas os acusados de tráfico de drogas (crime a que correspondem dois terços das condenações à morte) mas também pessoas condenadas por homossexualismo e abuso de álcool conhecem esse destino.
A teocracia xiita não é, evidentemente, o único regime onde vigora esse bárbaro método de justiça criminal. A China lidera, em números absolutos, o "ranking" da pena de morte -milhares de execuções em 2011, contra as 360 do Irã.
Seguem-se Arábia Saudita, com 82 execuções, Iraque (68) e EUA (43), segundo compilação do diário britânico "The Guardian".
Nesse último país, num comportamento que não deixa de ter as incoerências apontadas por Hélio Schwartsman em artigo de ontem nesta Folha, as execuções não se fazem publicamente.
É como se a aplicação da lei fosse motivo de vergonha para as próprias autoridades -e deveria ser, de fato, num país civilizado. Nunca se está a salvo plenamente de um erro judicial. A própria ideia de que o Estado possa tirar a vida de um cidadão já constitui um abuso injustificável de poder.
Mais ainda num país como o Irã, onde a onipresente repressão política conta com mais um mecanismo a seu dispor: acusações falsas, em processos conduzidos por autoridades religiosas, podem levar ao enforcamento qualquer indivíduo indesejável ao regime.
É como instrumento de terror político, e, infelizmente, também como fonte de legitimidade perante a população, que o sistema de execuções públicas prospera no país.
Um adolescente, relata o repórter, filmava a execução pelo celular. Pelo alto-falante, recitavam-se trechos do Corão. Um chute no tambor de petróleo e, em seguida, o acionamento do guindaste.
Nesse amálgama macabro de barbárie secular e mecanização industrial estão simbolizadas as contradições do Irã -e só resta contar com que se resolvam, como é a longo prazo a tendência na maior parte do mundo, no caminho da civilização e da liberdade

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