sábado, 28 de julho de 2012

Mal da Espanha é europeu


Editoriais
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A agonia espanhola não segue passos muito diferentes daqueles que levaram a Grécia a um programa de arrocho e reformas liberais em troca de socorro financeiro.
A Espanha tentou evitar a imposição externa de cortes de gastos oferecendo antecipadamente o sacrifício. Mas sua crise se desenrola no padrão grego básico.
A diminuição da despesa pública aprofunda a recessão, que reduz a receita pública, com o que não se consegue conter deficit e dívida do governo -o objetivo inicial. A incerteza sobre o futuro do euro e a falta de perspectiva de fim da crise intensificam o ciclo vicioso.
O governo da Espanha não chegou ao ponto de solicitar socorro direto para si mesmo, mas pediu à União Europeia 100 bilhões de euros a fim de evitar a quebra desordenada de bancos. Aprovada, a ajuda foi só um lenitivo transitório.
O dinheiro viria do novo fundo europeu de socorro, que ainda deve ser aprovado pela Corte Constitucional alemã. Esperava-se que a promessa de alívio atenuasse a crise até setembro.
Antes disso, o arrocho fez mais vítimas. A recessão espanhola neste ano deve ser maior que a prevista e durar até 2014. A economia deve encolher 2% e, ao final de 2013, ainda será 5% menor que em 2007. Governos autônomos começaram a pedir socorro ao governo central. A Espanha parece ruir.
De nada adianta o país ter comportamento exemplar: cortar gastos, aumentar impostos, fazer reformas. Os credores não acreditam que o governo espanhol terá como pagar as contas, cobrando, portanto, juros maiores a fim de compensar o risco de emprestar ao país.
Não haverá solução para essa espiral de colapso enquanto não se reconhecer que parte da dívida dos governos é impagável, que o Banco Central Europeu precisa emprestar a governos a fim de reduzir os juros e resgatar bancos para evitar quebras em série. A Alemanha, principalmente, se opõe à impressão de dinheiro para financiar dívidas e salvar bancos.
O Banco Central Europeu insinuou que pode intervir para baixar a febre espanhola, comprando títulos da dívida de governos e, assim, contendo a disparada dos juros que daria o golpe final na Espanha. Mas se trata de mais um dos remendos que as autoridades europeias vêm adotando desde 2009.
Ainda se dizia, então, que a Europa não era a América Latina e se negava que a Grécia precisaria de socorro etc. Em algum momento, os europeus terão de reconhecer que será preciso reestruturar sua dívida -como a América Latina o fez nos anos 1980 e 1990.

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