sábado, 23 de junho de 2012

Túmulo do samba


Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - A capa nº 6 da revista "Realidade", de novembro de 1966, era estrelada pelos jovens Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Magro (do conjunto vocal MPB4), Toquinho, Rubinho (baterista do Zimbo Trio), Jair Rodrigues, Nara Leão e Paulinho da Viola. Título: "Os novos donos do samba".
Tudo era samba, até o que não era. Era um nome genérico. E vinha de longe. Um livro de Orestes Barbosa, de 1932, intitulado "Samba", falava também de choros, marchinhas de Carnaval, valsas e sambas-canções. E, nos anos 50, quando Vinicius de Moraes chamou São Paulo de "túmulo do samba", não estava acusando a cidade de não produzir o dito ritmo, mas de ter uma noite acanhada, com poucas boates -tanto que o artista que motivou sua frase, Johnny Alf, nem era um sambista tradicional.
Em 1966, ainda se podia chamar tudo de samba porque, mesmo maquiado pela bossa nova, ele continuava o ritmo dominante -vide o número de bossas novas que lhe prestaram tributo até no título: "Samba de Uma Nota Só", "Samba de Orfeu", "Samba do Avião", "Samba Triste", "Samba do Carioca", "Samba Toff", "Samba da Pergunta", "Samba da Bênção", "Samba de Verão" e muitos mais. Chico Buarque e Paulinho da Viola compunham samba "full time" e, dali a três anos, o próprio Gilberto Gil teria seu maior sucesso com um samba: "Aquele Abraço".
Mas, em pouco tempo, a cena mudou. As gravadoras, aliás, multinacionais, decidiram que samba era aquilo que o pessoal do morro fazia no Carnaval. Tudo mais, que não fosse rock, cabia na sigla "MPB". Por coincidência -exceto Paulinho da Viola, que silenciou-, muitos sambistas de 1966 aderiram a um ritmo cursivo, invertebrado, sem swing, de mais trânsito internacional.
No fim, São Paulo deu a volta por cima. E quem se tornou o túmulo do samba, no sentido literal, foi o Brasil.

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