terça-feira, 19 de junho de 2012

A sustentabilidade do carioca


Carlos Heitor Cony

RIO DE JANEIRO - Não herdei de ninguém: foi a vida que me fez cultivar um espírito de porco que os anos aperfeiçoaram. Para usar uma palavra que está em moda: é um espírito de porco que adquiriu "sustentabilidade". Ao menos nesse departamento, eu estou atualizado.
Em função dessa sustentabilidade, vejo sem entusiasmo a Rio+20, que até agora só serviu para piorar o tráfego aqui na Lagoa, onde moro. Não tenho qualquer entusiasmo por esse tipo de evento, não sei em qual ano estive na Suécia para cobrir o casamento da rainha Silvia com o rei local e me botaram num enorme anfiteatro onde o tema em discussão foi a salvação das baleias. Ignoro se elas foram salvas. De qualquer maneira, fiz o que me pediram: assinei um manifesto num dos raros momentos em que dei uma folga ao meu espírito de porco.
Pior do que isso: por ocasião da Eco 92, tive de editar um álbum (até que luxuoso) em três línguas, patrocinado pela ONU, pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo governo do Estado do Rio. Foi uma tarefa profissional que tentei fazer da melhor maneira possível. Um dos pontos mais simpáticos da reunião, ao qual dei o devido destaque, foi o projeto da despoluição da baía de Guanabara, cuja sujeira escandalizou todas as delegações estrangeiras.A comissão que tratou do problema descobriu que no escudo oficial da cidade figuram dois golfinhos, que eram abundantes no tempo dos tamoios que aqui viveram.
A conclusão do relatório foi a promessa formal de que os golfinhos voltariam às nossas águas abençoadas pelos braços abertos do Redentor sobre a Guanabara.
Vinte anos depois, é mais fácil encontrar na nossa baía os ossos de Dana de Tefé do que um dos golfinhos que continuam a sustentar o brasão histórico da cidade.

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