sábado, 9 de junho de 2012

Surge o anjo pornográfico


Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - Com divertido espanto, como diria Nelson Rodrigues, leio ou ouço com frequência esta frase sobre ele: "Nelson Rodrigues, que era chamado de 'o anjo pornográfico'...". E então me lembro de um remoto domingo de 1992, em que, trabalhando no que seria a biografia do homem, passei de novo os olhos por um recorte da revista "Manchete", de outubro de 1966, contendo -pela primeira e única vez- a expressão.
Era uma entrevista-relâmpago com Nelson pelo repórter André Kallàs, publicada numa seção da revista chamada "Leitura Dinâmica", que constava de papos curtos e objetivos sobre um tema que envolvesse o sujeito no momento. No caso, era a proibição do genial romance de Nelson "O Casamento", numa medida inconstitucional do ministro da Justiça, Carlos Medeiros Silva, já que não havia censura de livros no Brasil.
Nessa entrevista, Nelson se definia: "Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou e sempre fui um anjo pornográfico".
Eu já lera o recorte umas cem vezes e não me ocorrera que ali estava o título que eu procurava para o meu livro. Era o óbvio ululante, que eu não conseguia enxergar -e só então enxerguei. Liguei empolgado para Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, e comuniquei-lhe meu achado: "O Anjo Pornográfico". Em 1992, o uso da palavra "pornográfico" no título não era algo tão tranquilo para um livro. Mas Luiz aprovou-o imediatamente e apenas me sugeriu mantê-lo em segredo até que o livro saísse, o que aconteceu no fim do ano.
Até então, ninguém chamara Nelson de "anjo pornográfico". E ele próprio nunca mais repetiria a expressão. Mas o título do livro pegou, e acabou por defini-lo para sempre.

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