sábado, 9 de junho de 2012

Reagan era um keynesiano


Paul Krugman

O declínio econômico que ele enfrentou era muito diferente do atual e muito mais fácil de lidar
Não resta dúvida de que a recuperação dos EUA após a crise financeira tem sido frustrante.
Na verdade, venho argumentando que seria melhor olhar a era desde 2007 como uma "depressão", um período prolongado de fraqueza econômica e desemprego elevado que, como a Grande Depressão na década de 1930, persiste apesar de fases em que a economia cresce.
Os republicanos adoram contrastar a atuação do presidente Barack Obama com a de Ronald Reagan, que, a esta altura da sua Presidência, de fato comandava uma forte recuperação econômica. Poder-se-ia pensar que a comparação mais relevante é com George W. Bush, que, neste estágio da sua gestão, ainda tinha -ao contrário de Obama- uma grande perda de empregos no setor privado.
E o declínio econômico que Reagan enfrentou era muito diferente da nossa atual depressão, e muito mais fácil de lidar. Ainda assim, a comparação Reagan/Obama é reveladora sob alguns aspectos.
Em pelo menos uma dimensão, a dos gastos públicos, houve uma grande diferença entre os dois, com os gastos públicos totais, ajustados conforme a inflação e o crescimento populacional, aumentando muito mais rapidamente sob uma do que sob a outra.
Reagan, e não Obama, foi o grande gastador. Embora tenha havido um breve surto de gastos governamentais no começo da gestão Obama, isso já passou faz tempo. Na verdade, a esta altura, o gasto público está caindo rapidamente, com o gasto real per capita encolhendo ao longo do último ano em um ritmo que não era visto desde a desmobilização que se seguiu à Guerra da Coreia.
Por que o governo gastava muito mais sob Reagan do que na atual crise? O "keynesianismo bélico" -a grande expansão militar de Reagan- teve um papel. Mas a grande diferença eram os gastos reais per capita em níveis estadual e local, que continuaram crescendo sob Reagan, ao passo que caíram significativamente desta vez.
Em suma, se você quer ver o governo reagindo a épocas de dificuldades econômicas com as políticas de "taxar e gastar" que os conservadores sempre denunciam, deveria olhar para a era Reagan -e não para os anos Obama.
Então a recuperação econômica da era Reagan demonstra a superioridade da economia keynesiana? Não exatamente. Porque, como eu disse, a verdade é que a crise dos anos 1980 foi muito diferente da nossa atual depressão, causada por excessos do setor privado: acima de tudo, a explosão das dívidas familiares durante os anos Bush.
A crise da era Reagan podia ser e foi rapidamente encerrada, quando o Fed decidiu amolecer e cortar os juros, desencadeando um gigantesco boom imobiliário.
Essa opção não está disponível agora, porque os juros já estão próximos de zero.
A questão, então, é que estaríamos em situação muito melhor se estivéssemos seguindo o estilo Reagan de keynesianismo. Reagan pode ter pregado um governo pequeno, mas na prática comandou um grande aumento nos gastos -e neste momento é exatamente disso que os EUA precisam.
Tradução de RODRIGO LEITE

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