sábado, 30 de junho de 2012

'Mata!' revela que a ditadura militar executou 41 guerrilheiros no Araguaia


Opinião

OSCAR PILAGALLO
ESPECIAL PARA A FOLHA


Enquanto acontecia, entre 1966 e 1974, a Guerrilha do Araguaia esteve envolta pelo manto do silêncio imposto pela censura da ditadura militar. Mais tarde, com a redemocratização, a história começaria a ser contada em reportagens e livros.
Em meados da década passada, "Operação Araguaia", de Taís Morais e Eumano Silva, deu um passo importante para o conhecimento do que ocorreu nas matas do Pará, com a revelação de documentos do Exército. Agora, com "Mata! O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia", de Leonencio Nossa, mais detalhes vêm à tona.
A Guerrilha do Araguaia foi uma iniciativa do Partido Comunista do Brasil, que visava, a partir de uma revolução no campo, derrubar o regime militar e implantar um socialismo de orientação maoísta.
Infiltrados nas comunidades locais, cerca de cem militantes pegaram em armas e enfrentaram três expedições de tropas do Exército. Os guerrilheiros, em sua maioria, foram mortos.
"Mata!" resulta de uma exaustiva pesquisa do jornalista, que ouviu dezenas de depoimentos e, ao longo de vários anos, entrevistou repetidas vezes o maior protagonista da ação militar, Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, "um dos cem homens da política de extermínio" do presidente Emílio Garrastazu Médici (1969-1974).
A recompensa pelo esforço foi o acesso ao arquivo pessoal de Curió: 32 pastas, cinco mapas, seis álbuns de fotografias e muitos papéis soltos, tudo guardado numa mala de couro vermelho. O livro é ancorado nesse material, "o único que se conhece sobre fuzilamento de presos políticos na ditadura militar".
Não é novidade que militares mataram guerrilheiros depois de presos. Os primeiros relatos já davam conta da prática, e Leonencio Nossa já antecipara informações, em 2009, numa série de reportagens no jornal "O Estado de S. Paulo", onde trabalha.
A novidade, agora documentada, é que teria havido pelo menos 41 execuções, e não 25, como se imaginava. O livro traz a lista dos nomes das vítimas, com data e local das mortes. São informações relevantes, sobretudo porque emergem logo após a instalação da Comissão da Verdade.
O autor corrige também versões dos guerrilheiros, ao sustentar, por exemplo, que eles minimizaram a adesão de moradores para reforçar o heroísmo dos comunistas.
Com estrutura fragmentária, o livro intercala breves histórias. Embora seja uma opção defensável devido à grande quantidade de personagens, tal narrativa prejudica a visão do conjunto.
Outro problema decorre da ambição de abarcar a história da região e de investir na biografia de Curió, além de seu papel no combate à guerrilha. A maior abrangência não compensa a perda de foco. Ainda assim, trata-se de contribuição consistente à historiografia do período.

OSCAR PILAGALLO, jornalista, é autor de "História da Imprensa Paulista" (selo editorial Três Estrelas).

LANÇAMENTO
MATA! O MAJOR CURIÓ E AS GUERRILHAS NO ARAGUAIA
Leonencio Nossa
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 45 (512 págs.)
AVALIAÇÃO Bom 

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