quarta-feira, 20 de junho de 2012

Imitação


Antonio Delfim Netto

Numa extraordinária entrevista ao "Spiegel Online" (em 25/5), o grande psicólogo Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia em 2002, sintetizou os resultados de suas longas e exaustivas pesquisas sobre a capacidade de previsão dos operadores de mercado, mesmo quando auxiliados por sofisticados métodos da chamada econofísica.
Trata-se de uma espécie de alquimia, último refúgio de físicos que não tiveram sucesso em suas carreiras e que decidiram ganhar dinheiro como analistas nas Bolsas de Valores. Eles dão conselhos altamente remunerados a investidores à procura da fórmula mágica que maximiza os lucros e minimiza os riscos.
Teriam "descoberto" a dinâmica de comportamento da "roleta" e, portanto, seriam capazes de prever os seus resultados futuros. O ponto interessante é que, quanto mais incompreensível o instrumento matemático utilizado, maior é a confiança que ele desperta nos incautos...
Kahneman não tem papas na língua. Afirma que, "nas Bolsas de Valores, por exemplo, a predição dos 'experts' é praticamente sem nenhum valor. Qualquer indivíduo que deseja investir seus recursos faria melhor se escolhesse o índice de um fundo de ações, sem a intervenção de um 'expert'".
Como ele afirma, "anos após anos, eles foram melhores do que 80% dos fundos de investimento administrados pelos especialistas bem pagos. Entretanto, intuitivamente, desejamos investir nossos recursos com alguém que parece entender do assunto, mesmo quando as evidências estatísticas mostram claramente que isso não é verdade. Seguramente, há setores em que a 'expertise' existe. Isso, entretanto, depende de dois fatores: se o setor é inerentemente previsível e se o 'expert' tem experiência suficiente para ter apreendido suas regularidades. O problema é que o mundo das ações é inerentemente imprevisível".
Quando o entrevistador do "Spiegel" o interrompe com a indagação "Então todas essas análises complexas não têm qualquer valor e não conseguem ser melhores do que a aposta no índice?", ele complementa: "Os 'experts' são ainda piores, porque são custosos!".
A coisa está ficando mais opaca com os fundos que tentam perseguir, com sofisticados algoritmos, as "tendências" que se formam nos mercados ("trend-followers"), os Commodity Trading Advisors (CTAs). Estes reconhecem, explicitamente, que os mercados estão longe de serem perfeitos e que são tiranizados por modismos e liquidados pelo pânico. Tudo isso vai continuar.
Não importa a qualificação do investidor. Ele sempre terá mais conforto com o suporte da muleta de alguém reconhecido como "expert". Não há nisso mal maior porque melhora a distribuição de renda!

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