terça-feira, 26 de junho de 2012

Da tortura à Presidência


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Dilma Rousseff tinha 22 anos quando foi presa por agentes da ditadura militar. O ano era 1970; levada às dependências da Oban (Operação Bandeirante), foi submetida a espancamentos, choques elétricos e sessões no pau de arara.
Merece ser lido na íntegra seu depoimento ao Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais, publicado por esta Folha. Feito em 2001, só agora foi divulgado.
Além da tortura física, o terror psicológico era constante. "Você vai ficar deformada, ninguém vai te querer", disseram-lhe os carrascos. Dilma foi ainda submetida a uma encenação de fuzilamento. "Lembro-me do medo quando minha pele tremeu. Tem um lado que marca a gente pelo resto da vida."
O depoimento não difere, por certo, dos prestados por tantas outras vítimas da repressão organizada pelo regime militar. Mas chama a atenção o fato de quem o prestou ser a atual presidente do país, e de só agora ter vindo a público.
Num ambiente político em que, com tanta frequência, o termo "revanchismo" é invocado, vale assinalar a reserva com que foi tratada, nos últimos anos, a dramática experiência pela qual Dilma passou. Seria fácil explorá-la politicamente, numa espécie de sentimentalismo macabro.
Quando foi presa, Dilma era dirigente da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, organização que realizava assaltos com vistas ao financiamento de ações militares contra o regime. As atividades do grupo resultaram na morte de pessoas inocentes.
Não há por que negar, nesta altura, a estupidez desse tipo de ação. A Lei da Anistia, porém, encerrou o debate sobre responsabilidades criminais de todos os envolvidos.
Não apagou, entretanto, a memória de ninguém. Lendo-se depoimentos como o de Dilma, pareceria implausível que alguém submetido a tortura e terror tivesse condições psicológicas para seguir em frente, tanto na vida pessoal como na rotina da atuação política.
Na área da política, contudo, só avança quem se dispõe a conviver com adversários, eliminar ressentimentos, dedicar-se à negociação. Dilma provou-se capaz disso. Por mais que se assinalem traços mais ásperos em seu temperamento, sua atuação como presidente não tem sido pautada por rancor nem por ânimo retaliatório.
A maturidade política dessa atitude não deixa de refletir, na verdade, o amadurecimento da democracia no Brasil. Ainda assim, também de um ponto de vista pessoal, Dilma Rousseff se engrandece com a tardia divulgação de seu depoimento.

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