sábado, 9 de junho de 2012

Cotas e ilusões


Hélio Schwartsman

SÃO PAULO - Tramita no Senado um projeto que reserva 50% das vagas em universidades federais para egressos de escolas públicas. A proposta pode até ser justa, mas, se efetivada, representaria um golpe na excelência dessas instituições.
Se há um campo onde somos vítimas de nossas ilusões cognitivas, é a educação. É que, em nossas cabeças, escolas servem para ensinar; assim, atribuímos todos os progressos observados no aluno ao colégio em que ele está, deixando de ver que a qualidade de uma instituição se deve muito mais ao nível de seu corpo discente do que a qualquer outro fator.
Quem primeiro mostrou isso foi James Coleman, em 1966. No que provavelmente é o maior achado do "Coleman Report", o autor mostrou que a extração familiar e a condição socioeconômica do estudante eram fatores muito mais importantes para explicar seu sucesso (ou fracasso) do que variáveis mais específicas como a qualidade dos professores, o gasto médio por aluno etc.
De lá para cá, inúmeras pesquisas em diferentes lugares do mundo confirmaram o peso das variáveis família e status socioeconômico, a ponto de alguns estudiosos chegarem perto de afirmar que matricular o filho nas melhores escolas é irrelevante.
É preciso um pouco de cuidado na interpretação desses achados, pois há uma assimetria fundamental. Alunos brilhantes se saem bem não importando muito qual escola tenham frequentado. Mas, para os que estão na faixa mediana ou abaixo dela, há benefício significativo em estudar com alunos mais preparados, que os "puxam" para cima.
Democratizar-se e manter a qualidade são objetivos até certo ponto contraditórios. Não que seja impossível conciliá-los, mas existe um número ótimo de alunos menos preparados que uma instituição pode incorporar antes de comprometer a qualidade. Um corte linear de 50% em todas as universidades federais dificilmente é a melhor resposta.

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