terça-feira, 19 de junho de 2012

Comissão da Verdade diz que irá investigar torturas contra Dilma


Grupo enviou assessor a Belo Horizonte e pode ouvir presidente



LUCAS FERRAZ
DE BRASÍLIA
PAULO PEIXOTO
DE BELO HORIZONTE



A Comissão da Verdade anunciou ontem que vai investigar as torturas sofridas pela presidente Dilma Rousseff na ditadura militar.
A decisão acontece após a revelação, pelos jornais "Correio Braziliense" e "Estado de Minas", de documentos do Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais nos quais a hoje presidente descreve ter sofrido torturas que ainda não tinham vindo a público.
Ex-guerrilheira comunista, Dilma passou quase três anos detida, entre 1970 e 1972. Até agora, conhecia-se outros dois episódios de tortura no Rio e em São Paulo.
O testemunho dela, de 2001, foi prestado a integrantes do conselho mineiro e narra sessões de tortura em Juiz de Fora (MG), para onde ela foi levada em janeiro de 1972.
O Planalto não se manifestou sobre o assunto.
Instalada pela própria presidente no mês passado para apurar as violações aos direitos humanos ocorridas entre 46 e 88, a Comissão da Verdade destacou um assessor para viajar a Belo Horizonte para obter os documentos.
A decisão foi tomada por José Carlos Dias e Maria Rita Kehl, dois dos sete membros da comissão, que se reuniram ontem em São Paulo.
"Os depoimentos, inéditos, revelam graves violações aos direitos humanos. Devemos investigar", disse Dias.
Gilson Dipp e os demais membros do colegiado disseram que, até o momento, não há necessidade de ouvir a presidente sobre o tema.
Mas eles não descartam a possibilidade de fazê-lo no futuro. "Os detalhes [do depoimento] são pesados e doloridos", afirmou Dipp.
No documento, Dilma descreve os tipos de tortura a que foi submetida, como pau-de-arara, choques elétricos e palmatória e tapas no rosto. "Minha arcada girou para o outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente deslocou-se e apodreceu", relatou ela, de acordo com o jornal. "Só mais tarde, quando voltei para SP, o [capitão Alberto] Albernaz completou o serviço com um soco, arrancando o dente."
A correção da arcada dentária foi uma das cirurgias a que Dilma se submeteu às vésperas da campanha de 2010: "A pior coisa é esperar por tortura", diz ela no relato: "As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim".
Os cerca de 700 depoimentos de presos políticos de Minas não foram gravados por vontade deles próprios e também para preservá-los.
O filósofo Robson Sávio Reis Souza, que tomou o depoimento de Dilma, disse que estudiosos em psicologia consideram que o trauma da tortura pode afetar até a quinta geração dessa pessoa.
Além disso, disse, por causa do abalo psicológico, os presos políticos quase sempre temiam que as gravações pudessem ser usadas contra eles. Muitos escreveram seus depoimentos à comissão.
A preocupação da comissão foi a de preservar as pessoas e não insistir em depoimentos se elas não quisessem mais falar. Foi o o que ocorreu com Dilma, que ficou muito abalada emocionalmente ao relembrar os fatos. Em seu depoimento, Dilma, que era secretária do governo gaúcho, falou das hemorragias no útero que sofreu e declarou que foi atendida no Hospital das Clínicas.

Nenhum comentário: