terça-feira, 19 de junho de 2012

Apostando no futuro


Hélio Schwartsman

SÃO PAULO - O que a crise econômica europeia e a conferência Rio+20 têm em comum? Ambas podem ser descritas como uma negociação sobre o futuro e os termos do chamado pacto intergeracional.
No primeiro caso, temos um embate entre os grupos que prescrevem crescimento para combater as agruras da economia -com destaque para a recém-socialista França- e aqueles que insistem na fórmula da austeridade -encabeçados pela todo-poderosa Alemanha, que defende cortes de gastos e redução nos benefícios previdenciários, entre outras políticas características da direita.
Basicamente, a esquerda sustenta que precisamos gastar mais agora, a fim de preservar conquistas sociais, mesmo que empurremos parte da conta para as próximas gerações. Os fiscalistas, porém, ao teimar no remédio amargo já, tentam proteger mais o futuro de seus filhos e netos.
Na Rio+20, os papéis se invertem. É em nome da preservação do planeta para nossos descendentes que os grupos mais à esquerda cobram uma política agressiva, que implica sacrifícios presentes. Já os conservadores cavam nas incertezas dos modelos climáticos pretextos para que deixemos tudo como está, mesmo que isso traga pesados ônus no futuro.
Não é a única situação em que os discursos se embaralham. São bandeiras caras à esquerda, por exemplo, a legalização do aborto e do consumo de drogas e a condenação da pena de morte e do porte de armas. Já a direita sustenta exatamente o contrário. São "clusters" difíceis de conciliar com os ditames da razão. Se é o princípio da sacralidade da vida que prepondera, deveríamos ser contra os quatro pontos. Já uma defesa intransigente das liberdades recomendaria a aprovação de todos eles.
Receio que a dicotomia esquerda-direita se funde menos numa sistematização racional e coerente dos fatos do mundo do que num sistema de juízos morais em boa medida determinados por acasos históricos.

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