sábado, 26 de maio de 2012

Câmbio na Argentina

Editoriais
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A Argentina foi tomada nesta semana por boatos de maxidesvalorização do peso. A diferença entre a cotação oficial do câmbio e a do mercado paralelo chegou a 32%. No início do ano, a disparidade era de cerca de 8%.
O temor da máxi foi deflagrado por novas medidas de limitação de venda de dólares para o cidadão, às quais se seguiram intensificados ataques do governo contra negócios de câmbio paralelo.
Vítima de confiscos de seus haveres e de desvalorizações brutais do peso, os argentinos, quando podem, poupam em dólar e o entesouram em casa ou no exterior.
Desde a reeleição de Cristina Kirchner, em outubro, o governo procura conter a fuga de dólares. Impôs novas restrições às importações, ordenou o repatriamento rápido da receita de exportações, limitou as compras e despesas em moeda estrangeira.
As investidas do governo tiveram efeito. As importações pararam de crescer, e a fuga de capitais foi contida, em parte devido a controles de natureza policial.
Explica-se a avidez do governo por dólares. O país está, na prática, desconectado do mercado financeiro mundial desde 2001, quando deu o calote. O investimento estrangeiro é reduzido. A Argentina depende do saldo comercial para pagar compromissos externos, entre eles a compra de energia.
O temor de escassez de moeda forte e de perda de receitas com exportações ficou mais intenso devido ao agravamento da crise mundial. E, também, à lentidão da economia brasileira e à desvalorização do real, que prejudica exportações argentinas e favorece importações de produtos do Brasil.
As exportações são ainda prejudicadas pelo encarecimento da produção. Estima-se que a inflação anual esteja entre 20% e 25%. O aumento de custos não tem sido compensado por uma desvalorização em ritmo equivalente do peso.
Especula-se que o governo teria de permitir uma desvalorização mais rápida da moeda a fim de defender seu mercado ou manter a atratividade de suas exportações.
O súbito medo da desvalorização (ou mesmo de confisco de depósitos em dólares) é outro sinal de fadiga em uma política econômica que fez muito mais que tirar o país da depressão do início do século -desde 2001, a Argentina cresceu mais que o Brasil e o Chile.
Mas os argentinos precisam se livrar da ilusão de que podem repetir, sem mais, o modelo da última década, favorecido ademais pelo forte crescimento mundial. É hora de transitar para a normalização paulatina de sua economia.

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