segunda-feira, 21 de maio de 2012

Cabo Anselmo já era agente duplo em 64, dizem documentos

Comissão de Anistia deve julgar amanhã pedido de indenização de ex-militante que ajudou a ditadura



Papéis da Aeronáutica indicam que marinheiro já era delator na época do golpe; ele diz que só mudou de lado em 1971

Alexandre Rezende - 17.out.2011/Folhapress
Cabo Anselmo em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no ano passado
Cabo Anselmo em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no ano passado



LUCAS FERRAZ

DE BRASÍLIA


Documentos secretos produzidos pelo serviço de inteligência da Aeronáutica na ditadura militar (1964-85) indicam que o marinheiro de primeira classe José Anselmo dos Santos, o mais famoso agente duplo brasileiro, já era informante do regime nos primeiros anos do golpe.
Os papéis a que a Folha teve acesso integram processo de Cabo Anselmo na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que vai julgar amanhã seu pedido de reintegração à Marinha como suboficial. Ele também quer receber aposentadoria e indenização como anistiado.
Os novos elementos reforçam a tendência de o pedido ser negado pelo governo.
Anselmo diz que, para não morrer, passou a colaborar com a ditadura em 1971, quando foi preso pelo delegado Sérgio Fleury. Suas delações levaram à morte de militantes de esquerda, inclusive sua mulher, a paraguaia Soledad Barrett, em 1973.
Os documentos, ao lado de outras provas reunidas no processo, que será relatado pelo ex-ministro de Direitos Humanos Nilmário Miranda, contradizem o ex-militar.
Entre essas provas está depoimento do ex-delegado Cecil Borer, publicado pela Folha em 2009, segundo o qual Anselmo já era informante antes de 1964.
Nos novos papéis, encaminhados pelo Arquivo Nacional em abril, há depoimento de Siglia Piedade Pinto Monteiro, ex-secretária do marechal Henrique Teixeira Lott.
Ela afirma que um "grupo de militares sabe onde está Cabo Anselmo". O depoimento foi dado ao Cisa (órgão de inteligência da Aeronáutica) em maio de 1966, menos de dois meses depois da fuga de Anselmo de uma delegacia no Alto da Boa Vista, no Rio, onde ele tinha regalias.
Siglia disse ter sido "olhos e ouvidos" de Lott em reunião com um grupo de 12 militares em Petrópolis (RJ). O documento do Cisa relata que "fora dada fuga ao Cabo Anselmo", sem entrar em detalhes -confirmando declarações de Cecil Borer de que a fuga de Anselmo foi uma farsa.
Os papéis reforçam a versão da esquerda de que Cabo Anselmo foi um agente provocador e colaborou com os militares desde o golpe de 1964. Após fugir da cadeia, ele foi para Cuba, de onde só voltou no fim dos anos 1960.
OUTRO LADO
Anselmo não foi localizado ontem. Seu advogado, Luciano Blandy, disse que não conseguiu falar com ele.
"Não posso comentar esses papéis", afirmou Blandy. "A comissão juntou esses novos documentos sem comunicar a defesa."
O pedido de anistia de Anselmo foi protocolado no Ministério da Justiça em 2004. O caso será julgado na semana seguinte à instalação da Comissão da Verdade, que investigará crimes da ditadura.

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