segunda-feira, 2 de abril de 2012

Expurgo de líder local expõe divisão dentro do Partido Comunista da China

Estrela cadente. Bo Xilai, líder do PC na cidade de Chongqing, era um dos favoritos para assumir um posto no Comitê Permanente do Politburo, no fim do ano, mas foi subitamente afastado do cargo depois que um assessor pediu asilo no Consulado dos EUA

CLAUDIA TREVISAN
 ENVIADA ESPECIAL ,
CHONGQING, CHINA - O Estado de S.Paulo

A cidade de Chongqing é palco de um expurgo político poucas vezes visto na China desde os protestos da praça Tiananmen em 1989. O esforço é para eliminar o espírito vermelho da Revolução Cultural, representado pelo legado de Bo Xilai, 62, antigo chefe local que caiu em desgraça.


"O show de Chongqing terminou", disse ao Estado o comentarista político Wang Kan. As canções revolucionárias começaram a sair de cena. As minisséries "comerciais", que foram banidas há um ano para dar lugar a "concertos vermelhos" e programas revolucionários, retornaram às telinhas.

Acima de tudo, o drama político colocou em xeque os métodos utilizados na campanha contra o crime organizado, que levou à detenção de quase 5 mil pessoas e deu celebridade nacional a Bo e a seu braço direito, o chefe de polícia Wang Lijun. A cada dia aprecem novas denúncias de que muitas das investigações foram conduzidos sob tortura, provas fabricadas e houve desrespeito a procedimentos legais básicos.

Estudioso da Revolução Cultural e ex-editor de uma revista dedicada à história do Partido Comunista, He Shu acredita que a operação antimáfia era o elemento que mais aproximava o período de Bo dos anos de terror vividos pela China entre 1966 e 1976. "Como Mao Tsé-tung, ele abandonou a lei e criou grupos especiais de investigação, sem definir claramente o que era considerado crime", declarou He.

Da mesma maneira que Mao, Bo soube eletrizar a população. Carismático e dono de um estilo próprio em um mar de líderes inexpressivos, ele continua a ser venerado por grande parte de Chongqing, mesmo depois de seu afastamento.

Cerca de 15 pessoas abordadas pela reportagem do Estado na cidade foram unânimes em manifestar admiração pelo ex-governante. O combate ao crime, a melhoria da infraestrutura urbana e as políticas sociais são as principais razões que justificam o apoio ao líder afastado.

Esses também eram os ingredientes do "Modelo de Chongqing" que Bo pretendia usar como credencial de entrada no Comitê Permanente do Politburo, grupo de nove pessoas que manda na China, cujos novos membros serão definidos em congresso do PC no fim do ano.

Integrante da poderosa facção dos "pequenos príncipes", formada por filhos de heróis revolucionários, Bo era um dos favoritos, apesar da oposição do atual primeiro-ministro, Wen Jiabao, feroz crítico da Revolução Cultural e um dos líderes da facção rival à do ex-chefe de Chongqing.

Na opinião de Wang Kan, Bo seria um dos nove se o ex-comandante de sua operação antimáfia não tivesse pedido asilo político no Consulado dos EUA em Chengdu, em fevereiro, em um gesto que chocou os chineses.

As razões de Wang Lijun continuam nebulosas, mas o enredo cinematográfico ganhou mais um personagem na semana passada, depois que Londres pediu à China que reabra a investigação sobre a morte do britânico Neil Heywood, ocorrida em Chongqing em novembro.

Heywood era próximo da família de Bo, mas entrou em uma disputa comercial com a mulher do ex-líder, a advogada Gu Kailai. O britânico morava em Pequim e amanheceu morto em um quarto de hotel em Chongqing. A polícia concluiu que ele havia sido vítima do consumo excessivo de álcool, apesar de seus amigos garantirem que ele não bebia. Não houve autópsia e seu corpo foi cremado na China.

Segundo a Reuters, o rompimento entre Bo e Wang Lijun ocorreu depois que este levantou a suspeita de que o britânico havia sido envenenado, em um homicídio que teria o envolvimento de Gu Kailai.

O maior paradoxo da campanha de nostalgia maoista promovida por Bo Xilai em Chongqing é o fato de sua família ter sido vítima dos horrores da Revolução Cultural. Seu pai foi preso e torturado, sua mãe foi assassinada por guardas de Mao. O próprio Bo ficou preso de 1968 a 1972.

Como tudo o que envolve a cúpula do PC, o destino de Bo é um mistério. Não há informações sobre sua localização nem mesmo sobre as razões de seu afastamento. Um detalhe, porém, revela a intensidade da disputa interna e o apoio de Bo Xilai dentro do partido: ele ainda mantém sua cadeira entre os 25 integrantes do Politburo, a segunda instância na hierarquia de poder da China.

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