domingo, 4 de março de 2012

Transição difícil

Editoriais da Folha de São Paulo

China precisa enfrentar reformas nos próximos anos a fim de evitar desaceleração do crescimento que seria desastrosa para o mundo

A ascensão da economia chinesa não tem paralelo, em rapidez ou extensão. Em apenas dez anos, passou de uma posição secundária na ordem econômica mundial para se tornar o maior produtor e exportador global de manufaturas.
Em 2000, a produção industrial chinesa equivalia a 30% da americana. Em 2008, já a tinha suplantado. Nesse processo, retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza, acumulou US$ 3 trilhões em reservas internacionais e alcançou a posição de grande credor do mundo desenvolvido.
O sucesso recente trouxe distorções, que não são ignoradas pela ditadura chinesa. O modelo de crescimento é marcado por forte restrição ao consumo das famílias e por crédito abundante para empresas estatais, a custo subsidiado.
Tantos recursos disponíveis engendram uma tendência crônica ao investimento excessivo, em setores como construção civil e infraestrutura. Teme-se que muitos dos projetos se mostrem pouco rentáveis, o que levaria a uma montanha de créditos impagáveis.
O risco que ronda o modelo chinês é o da desaceleração abrupta, que teria consequências nefastas para a fragilizada economia global. Estudo recente do Banco Mundial aponta a urgência de realizar ajustes nos próximos anos.
Não é pequeno o desafio de reformar a economia para conter sua dependência do investimento estatal, aumentar a parcela do consumo familiar e reforçar estruturas de proteção social, como saúde e aposentadoria.
Será imperativo direcionar mais crédito para pequenas e médias empresas privadas, abrir mercados hoje fechados à concorrência e criar agências de regulação profissionalizadas -entre outras inovações. A China está cada vez mais próxima de alcançar a fronteira tecnológica e, portanto, tem menos oportunidades de crescer apoiada em mão de obra barata e dirigismo governamental. De ora em diante, o peso do Estado pode se tornar contraproducente.
A transição será difícil porque há muitos interesses estabelecidos. Uma abertura financeira, por exemplo, reduzirá o poder dos burocratas que controlam bancos oficiais. Tentativas de forçar as estatais a distribuir parcela de seus lucros também enfrentam objeções.
O novo modelo, que será desenvolvido gradualmente, implicará uma mudança qualitativa na economia chinesa. O crescimento será menos voltado para a infraestrutura consumidora de matérias-primas, como o minério de ferro, e mais concentrado em tecnologia e serviços. A renda continuará a crescer, os hábitos de consumo se sofisticarão e o país será o maior comprador mundial.
O Brasil precisa se preparar para tais mudanças. Exportações de minério perderão terreno, mas a agropecuária poderá ser ainda mais beneficiada. Para a indústria nacional, a prioridade é reconquistar o mercado interno e regional, tomado pelas crescentes importações asiáticas.

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