quarta-feira, 14 de março de 2012

Paz distante

Embora enfraquecido, líder rebelde Joseph Kony, protagonista de um vídeo que virou hit na internet, continua levando terror à população em uma região no norte de Uganda; milhares morreram em 25 anos




Xavier Toya/Reuters
Garota em Gulu (Uganda) recebe tratamento médico de uma ONG local
Garota em Gulu (Uganda) recebe tratamento médico de uma ONG local



MICHAEL DEIBERT
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA,
 EM GULU (UGANDA)


Em Gulu, movimentada capital provincial no norte de Uganda, alguém que passou toda sua vida na cidade aponta para as estradas de terra vermelha que partem em direção à fronteira com o Sudão do Sul.
"Antigamente nem sequer saíamos da cidade", diz John Lukwiya (não é seu nome real), que trabalha com pessoas deslocadas na região.
"Percorrer 3 km era um desafio terrível. Você talvez sobrevivesse, talvez não. Hoje, porém, há construções em andamento e as pessoas estão plantando."
O conflito na terra ancestral do grupo étnico acholi (5% dos 35 milhões de habitantes deste país no centro da África) foi travado ao longo de quase 25 anos, mas hoje a região, com dificuldade, tenta recolocar-se em pé.
É esta a área de atuação do Exército de Resistência do Senhor (LRA, na sigla em inglês) e de seu líder, Joseph Kony, desde a semana passada uma estrela on-line.
Kony, foragido e conhecido por sequestrar crianças e usá-las como soldados, era um rebelde um tanto obscuro. Até ser protagonista de um vídeo postado no YouTube por um ativista americano denunciando seus crimes.
Virou um fenômeno instantâneo. Em menos de dez dias, foi acessado mais de 75 milhões de vezes.
FOGO CRUZADO
As raízes do conflito estão na história de turbulência política de Uganda. Os acholis eram a base do ditador Milton Obote (1965-71 e 1980-85).
Quando ele foi derrubado, o novo presidente, Yoweri Museveni (no poder até hoje), lançou uma brutal missão contra esse grupo.
A reação no norte de Uganda, alimentada pela riqueza de mitos locais, adquiriu contornos místicos.
Guerrilheiros acholi diziam caminhar diretamente para o meio de tiros, cantando hinos e segurando nas mãos pedras que acreditavam que se transformariam em granadas. O LRA é um dos herdeiros dessa tradição.
Em mais de duas décadas de conflito, milhares de civis foram pegos no fogo cruzado. Estimativas de mortos variam de 10 mil a 30 mil.
CRIMES DE GUERRA
"O governo afirmava que não estava conseguindo derrotar o LRA porque a população dava informações ao grupo. O LRA dizia que não estava conseguindo sobreviver bem nem derrotar o governo porque os civis davam informações ao governo", diz Francis Odongyoo, da ONG local Human Rights Focus.
A luta entre o LRA e Museveni deixou a vida na região de cabeça para baixo, mais do que qualquer conflito anterior.
"O impacto desta guerra foi quase universal", diz Ron Atkinson, professor de história da Universidade da Carolina do Sul que estuda a região há 40 anos.
"Quase todos foram impactados diretamente pela violência aberta, não apenas do LRA ou de grupos rebeldes anteriores, mas também do Exército ugandense e do governo, em especial a política de deslocamentos forçados imposta pelo Exército."
A política do LRA de alvejar civis levou o Tribunal Penal Internacional a emitir mandados de prisão em 2005 contra Kony e outros comandantes do LRA, acusados de crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Negociações de paz entre o LRA e o governo fracassaram em 2007. O governo fez uma nova ofensiva e, perseguido, o grupo afastou-se de Uganda. Desde então, segundo a ONU, 98% das pessoas deslocadas no país deixaram os campos em que viviam e voltaram para suas casas.
Mesmo assim, o LRA mantém seu potencial de semear o caos entre civis.
Entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, o LRA massacrou 620 civis e sequestrou mais de 160 crianças, retornando um ano depois para matar outros 321 civis e sequestrar outras 250 crianças.
Em outubro de 2011 o presidente americano, Barack Obama, anunciou o envio de cem soldados das forças especiais para ajudar Uganda a capturar Kony. Por ora, ele continua foragido em algum ponto da selva africana.
Tradução de CLARA ALLAIN

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