domingo, 4 de março de 2012

Os anos passam, ele fica

Gilles Lapouge
O Estado de S.Paulo

A Rússia vai às urnas hoje. O país elegerá Vladimir Putin, ex-diretor da KGB soviética, que chegou ao cargo mais alto do país graças a Boris Yeltsin, em 1999. Em 2008, depois de cumprir dois mandatos presidenciais, Putin não podia voltar a se candidatar. Então cedeu o lugar à sua "criatura", Dmitri Medvedev, e tornou-se primeiro-ministro do pupilo.


Hoje, acontece o contrário: Putin pôde voltar a se candidatar e se tornará presidente. E quem ele escolherá para o cargo de premiê? Dmitri Medvedev. Seu país é bem administrado, bem programado e Putin é um homem que enxerga longe. Na manhã de quarta-feira, quando recebeu todo sorridente e afável em sua "dacha", a poucos quilômetros de Moscou, jornalistas estrangeiros perguntaram se o atual premiê se candidatará novamente à presidência em 2018. Putin respondeu com simplicidade: "Seria normal, se as coisas correrem bem e as pessoas quiserem isso. Não sei. Ainda não refleti sobre isso". Se optar pelo quarto mandato, ele comandará a Rússia por 25 anos.

Putin deve ser eleito hoje. As pesquisas atribuem-lhe 66% das intenções. Mas essa cifra não significa nada. A Rússia de Putin é uma imensa fraude. Nas últimas eleições legislativas, seu partido, Rússia Unida, obteve 49% dos votos, mas os observadores mais honestos garantem que na verdade só recebeu entre 31% e 32% dos votos. A ONG Golos, que combate as fraudes, acusa: "O Kremlin está organizando uma histeria em massa acusando as ONGs e a oposição de trabalhar para estrangeiros".

O diagnóstico está correto. Putin introduziu no seu jogo a desconfiança que os russos nutrem por todos que vêm de fora. A xenofobia, tão ardentemente encorajada nos tempos da URSS, é seu melhor trunfo. O chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, disse: "A Rússia acabará com todas as tentativas dos Estados Unidos de influir no processo eleitoral". E acrescentou em tom ameaçador: "Os tempos em que Washington podia nos ensinar alguma coisa já passaram".

Os anos passam e Putin permanece. Poderíamos também dizer: os milênios passam, os comunistas substituem os czares, Putin substitui os comunistas e a Rússia continua sendo esmagada por autoritarismo, fraude, injustiça e resignação. Recentemente, as ruas se inflamaram contra o reinado de Putin. Aos milhares, os rebeldes assustaram o poder. Depois da longa "glaciação", estas manifestações se assemelharam a uma primavera. Mas que ninguém se iluda.

As manifestações de protesto só ocorreram em Moscou e nas grandes cidades, nas quais surgiu uma classe instruída, jovem, independente, necessitada de ar fresco.

No interior, persiste o antigo torpor russo. Ali, as pessoas votarão em Putin, principalmente porque representantes de Putin estarão agindo no meio da massa. É um fenômeno curioso: frequentemente, nas zonas rurais, as pessoas lamentam os tempos dos kolkozes, do comunismo. Todo mundo tinha trabalho, podia esperar uma aposentadoria. "Naquela época, as estradas estavam bem conservadas, os jardins cheios de flores", afirmaram ao enviado especial do Figaro os camponeses de Semiluki, ao sul de Moscou. O repórter pergunta:

"Então, vocês votarão no candidato comunista, Gennadi Ziuganov? - Ah, não, de jeito algum, ele não vai poder trazer o passado de volta.

- Então, votarão em quem?

- Em Putin".

 / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA         

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