domingo, 4 de março de 2012

A moratória norte-coreana

O Estado de São Paulo

O acordo a que os Estados Unidos e a Coreia do Norte chegaram na semana passada, em negociações secretas na China, pode ser mais do que "um primeiro passo positivo" para a desnuclearização da Península Coreana, como o qualificou um porta-voz da Casa Branca - o que já seria de bom tamanho. Pyongyang não há de ter trocado a suspensão dos seus testes nucleares e das atividades de enriquecimento de urânio na central de Yongbyon, ao norte da capital - abrindo-a, além do mais, aos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), das Nações Unidas -, apenas pelo proverbial prato de lentilhas. No caso, as 240 mil toneladas de "suplementos alimentares" que os EUA ficaram de despachar ao país pária onde 1,5 milhão de pessoas morreram de inanição na década de 1990 e a subnutrição afeta 25% dos habitantes (e 47% da população infantil).

Deve ser verdade, mas não toda a verdade, que a peculiar ditadura stalinista-monárquica norte-coreana precisa literalmente alimentar a lealdade dos seus súditos neste ano em que o regime se prepara para comemorar com eventos de massa e demonstrações de prosperidade o centenário de nascimento do fundador do país, Kim Il-sung, venerado como deus-pai. Para o seu neto de presumíveis 28 anos, Kim Jong-un, que herdou o poder em dezembro passado com a morte súbita do pai, Kim Jong-il, quase tão divinizado como o criador da dinastia, as celebrações serão o primeiro grande teste - a aparência de fartura mostrando-o em condições de seguir as pegadas de seus antecessores. É impossível saber se Jong-il já pensava no futuro do filho ou em sua própria glória quando autorizou a retomada das conversações com os americanos em julho de 2011. Mas o fato é que seu herdeiro (ou quem quer que seja o seu mentor) se apressou a levá-las a bom termo.

Com isso, emitiu um sinal suficientemente nítido para ser visto não só em Pyongyang e Washington, mas também em Seul, Pequim, Tóquio e Moscou, as capitais do sexteto diretamente envolvido com a questão coreana, de que lhe convém, pelo menos neste começo de mandato, antes a distensão do que a beligerância. São, por sinal, os polos entre os quais de há muito se move desigualmente a política externa norte-coreana. Os anos recentes, nesse sentido, foram de crispação. Em 2003, o regime abandonou o Tratado de Não Proliferação Nuclear a que havia aderido em 1985 e anunciou a sua intenção de fazer a bomba. Em 2006, contrariando promessas, explodiu o seu primeiro artefato. Repetiu a dose em 2009, depois de expulsar os fiscais da ONU, e deixou a mesa do Grupo dos Seis. Os incidentes se multiplicaram, em seguida ao afundamento de uma corveta sul-coreana em águas disputadas pelos dois países.

Pyongyang teria em estoque de seis a oito bombas de plutônio e um número não sabido de mísseis com alcance de 5 mil quilômetros. Com 1,2 milhão de soldados, o seu exército é o quarto maior do mundo. Na realidade, com atos hostis ou apaziguadores, a Coreia do Norte sempre teve um único objetivo estratégico: ser reconhecida e tratada de igual para igual pelos grandes deste mundo. Nada menos do que isso acalmará a paranoia dos dirigentes do Estado que se tornou pária por seu próprio isolacionismo e por incentivar a desestabilização da ordem internacional. Bizarra forma de buscar o respeito alheio, mas assim é que funciona o mais inescrutável e tenebroso sistema político do mundo, movido a megalomania, fanatismo e terror. Só se pode especular sobre até onde irá a elite militar do país - a sua força hegemônica - para promover a tratado de paz o armistício de 1953 com o vizinho do sul, depois da feroz guerra de três anos que envolveu tropas chinesas e americanas, e a normalização das relações com os Estados Unidos.

No entanto, nem Washington está pronto para isso nem Pyongyang pretende desativar as suas bombas. Mesmo a moratória nuclear, anunciou a Coreia do Norte, dependerá do prosseguimento de "diálogos produtivos".

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