terça-feira, 6 de março de 2012

A inanição não libertará o Irã

Há razões para a eleição iraniana ter ocorrido sem protesto; as sanções sufocam também aqueles que exigem mudança
  
HOOMAN, MAJD
THE NEW YORK TIMES,
É JORNALISTA IRANIANO-AMERICANO

Uma máxima antiga, atribuída ao Ministério das Relações Exteriores da Grã-Bretanha nos tempos do império, afirma: "Mantenham os persas famintos, e os árabes gordos". Era a fórmula usada pelos britânicos - na época, os guardiões do destino persa - para acalmar esses povos, e ainda é válida para os líderes da Arábia Saudita, que simplesmente distribuem grandes quantidades de dinheiro aos seus cidadãos ao primeiro sinal de agitação.

No caso do Irã, nem os EUA nem a Grã-Bretanha parecem segui-la fielmente. Manter os persas famintos era a garantia de que não se levantariam contra os seus patrões. Hoje, o desejo mais acalentado pelo Ocidente é, ao que tudo indica, que eles façam exatamente isso.

Não surpreende que a votação de sexta-feira tenha transcorrido sem agitação por parte dos eleitores da classe média ou a participação dos liberais que se opõem ao regime. Esses candidatos foram eliminados do cenário político.

As sanções ocidentais, outrora contra um alvo determinado e agora abrangentes, estão se tornando uma forma de punição coletiva. Sua finalidade, ao que nos dizem, é obrigar o governo islâmico a voltar à mesa de negociações a respeito da questão nuclear. Os políticos ocidentais parecem acreditar que punir o povo iraniano contribuirá para fazer com que esse culpe o próprio governo e force uma mudança de comportamento do regime. Mas como a antiga máxima britânica admitia, no Irã as privações são a receita do status quo.

O governo e o povo iraniano nunca foram isolacionistas. Mas à medida que as sanções cobram seu preço em vidas de cidadãos que querem continuam mantendo relações de negócios e se comunicar com o exterior, as energias para questionar a política do governo e provocar agitações para a mudança acabam.

No ano passado, enquanto morava em Teerã, conheci uma economia fragilizada e uma população faminta, não apenas de proteínas, mas de mudanças. Empresas que fecham as portas ou demitem trabalhadores pela falta de atividade comercial ou de novas oportunidades afetam todo mundo.

A mudança pela qual a maioria dos iranianos anseia é econômica. Enquanto eles se consomem na luta para empatar ganhos com gastos, em dois ou três empregos, e em alguns casos mandem crianças esmolar ou vender pequenos objetos, estão menos preocupados com sua fome secundária: a fome política.

A mudança política só ocorrerá depois que os iranianos não tiverem mais fome e o governo não tiver mais desculpas para usar, entre elas a da segurança nacional. Somente quando os iranianos com alto grau de instrução, sofisticados e talentosos tiverem "engordado" enfrentarão seus líderes e exigirão o direito de buscar uma felicidade além da vida e do estômago saciado. Os iranianos não aceitam ser mandados. Eles não culparão o seu governo pelas consequências das sanções porque dizemos a eles que o façam, nem derrubarão os aiatolás, por mais que os instiguemos a fazê-lo.

Com uma economia forte, a classe média voltará a exercer um papel político mais influente. Foi ela que, ainda bem alimentada depois de quatro anos de governo de Ahmadinejad, levantou-se em 2009, exigindo seus direitos civis. É o que restou dessa classe média que continua protestando hoje contra os abusos.

As sanções cada vez mais rigorosas impostas ao Irã também sufocam as vozes que exigem mudanças - vozes que simplesmente não podem ser ouvidas em um momento em que a população está sendo ameaçada com uma asfixia econômica ou, pior ainda, com bombas. As sanções não mudarão o comportamento do regime nem darão origem a uma Primavera Persa - pelo menos não enquanto os persas estiverem famintos, e apavorados. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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