segunda-feira, 5 de março de 2012

A grandeza de Eisenhower

Memorial planejado para homenagear o 34º presidente dos EUA não faz justiça a ele e dá mais destaque a aspectos de sua vida comum do que a seu heroísmo
  
ROSS, DOUTHAT,
THE NEW YORK TIMES
É ANALISTA POLÍTICO

Duas decisões serão tomadas este ano que, em longo prazo, influirão muito na maneira como entendemos a presidência. Em novembro, os eleitores decidirão se vão conceder um segundo mandato a Barack Obama. E, antes disso, em algum momento a National Capital Planning Commission decidirá se leva adiante o projeto de Frank Gehry de um Memorial a Dwight Eisenhower.

O projeto de Gehry é, bem, é típico do arquiteto: ele reelabora o modelo tradicional de um monumento usando imensas telas metálicas para retratar o ambiente da infância de Eisenhower no Kansas, ao passo que consagra um espaço muito menor às suas realizações na 2.ª Guerra e na Casa Branca. A única estátua importante vai retratar Eisenhower como um garoto de pés descalços, não um líder da guerra ou um presidente).

O projeto foi amplamente criticado - pela família de Eisenhower, por arquitetos tradicionalistas e articulistas de centro-direita como George Will e David Frum. Algumas críticas têm a ver somente com a estética, mas as mais importantes se referem à essência da obra: da forma planejada, o memorial subestima a grandeza do comandante supremo das forças aliadas.

O interessante, contudo, é que ao dar mais destaque a aspectos comuns da vida de Eisenhower do que ao seu heroísmo, Frank Gehry está sendo mais convencional do que radical. Da maneira como foi concebido, o seu monumento só vai confirmar, e não alterar, o lugar que Eisenhower ocupa hoje na memória nacional.

Como escreveu Philip Kennicott, do Washington Post, a visão de Gehry sugere que embora "Eisenhower tenha sido um grande homem, houve outros Eisenhowers por trás dele, outros homens que podiam fazer o que ele fez". Longe de uma reformulação corajosa da sua imagem, esse monumento é um resumo quase perfeito da maneira que muitos americanos veem hoje aquele que foi o 34.º presidente dos EUA.

Não quer dizer que os americanos não gostam de Eisenhower nem lembram com carinho do serviço que ele prestou. O novo livro Eisenhower in War and Peace, de Jean Edward Smith é a mais recente de uma série de biografias que se tornaram sucesso de vendas sobre Ike. Mas ele não é tão amado como muitos dos seus contemporâneos de meados do século. Como líder de guerra, ele foi ofuscado por Franklin Delano Roosevelt e por seus muitos subordinados pitorescos, e seus dois mandatos como presidente atraíram pouco daquele entusiasmo póstumo que fez do seu predecessor do "mostra para eles", um herói popular e do seu sucessor martirizado um ícone.

Numa pesquisa Gallup de 2011 sobre o maior presidente que o país já teve, Eisenhower ficou em 12.º lugar, empatado com Jimmy Carter. Ele tem um desempenho mais sólido nas pesquisas acadêmicas, mas com frequência vem sempre atrás dos seus proeminentes rivais do século 20.

Em parte, essa desvalorização resulta da persona política que Eisenhower cultivou - uma fachada simpática, de avô, que ocultava o mestre implacável da política. E em parte ela reflete o fato de a sua presidência jamais ter tido um acento fortemente ideológico. Os liberais (que preferiam Adlai Stevenson) comumente lembram o governo Eisenhower como um parêntese entre eras democratas heroicas, enquanto os conservadores (que defendem Robert Taft) sempre evocam a situação estática em que estavam antes da sua ascensão, que começou com Goldwater até Reagan.

Mas, enfim, Eisenhower é subestimado porque na Casa Branca sua liderança não se enquadrou no padrão de "grandeza" que muitos americanos esperavam dos seus presidentes. Não era um homem de grandes projetos, cruzadas corajosas ou tentativas para mudar a história do mundo. Não houve nenhuma "revolução Ike" na política americana, tampouco uma "Eisenmania" entre ativistas e intelectuais, nenhum realinhamento estilo Eisenhower.

Inversamente, sua grandeza manifestou-se nas crises que ele aplacou e nos erros que não cometeu. Não criou programas de dotações orçamentárias proibitivos, não adotou teorias econômicas implausíveis e não deixou déficits insustentáveis para seus sucessores. Ele pôs fim a um conflito paralisante na Coreia, manteve os EUA fora da guerra no Sudeste Asiático e rejeitou uma política nuclear arriscada na qual seu sucessor tropeçou. Não permitiu que uma série de crises no Oriente Médio levasse os americanos a uma intervenção ao estilo do Iraque.

Não arriscou sua presidência com roubos de terceira classe ou aventuras sexuais. Era resoluto quando necessário, mas seus sucessos - prosperidade, paz, avanços sólidos no campo dos direitos civis - foram quase sempre o fruto da precaução estratégica e inação magistral.

Talvez "outros homens" pudessem ter conseguido essa combinação de firmeza, competência e sucesso na administração de crises, como o projeto impessoal deste Memorial Eisenhower parece sugerir. Mas poucos ocuparam o Salão Oval nestes últimos 50 anos. Pelo contrário, desde a década de 60, passando pelas eras George W. Bush e Barack Obama - do "pagar qualquer preço, suportar qualquer fardo" ou o "você nunca deve desperdiçar uma crise grave" -, os vícios definidores da presidência moderna têm sido o orgulho excessivo, a irresponsabilidade e a ambição desmedida.

É por isso que a controvérsia envolvendo o memorial é de fato importante. Eisenhower merece um monumento que o coloque onde ele deve estar - na primeira fila de líderes americanos - porque é preciso lembrar a nação onde está a verdadeira grandeza de um presidente. Muitos políticos combinam a retórica exaltadora com grandes ambições. Mas são poucos o que têm os dons necessários para conduzir o navio do Estado mantendo-o longe das rochas e penhascos e, depois de oito anos, conduzi-lo indene ao porto. /
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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