quarta-feira, 14 de março de 2012

'Ato isolado' desgasta ainda mais a imagem dos estrangeiros

Análise

IGOR GIELOW
SECRETÁRIO DE REDAÇÃO 
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA


Há pouco mais de um ano, um ex-soldado a serviço da CIA matou dois homens em Lahore (Paquistão).
O que parecia um incidente isolado, para usar a retórica oficial americana na época, virou uma crise política de grandes proporções, que hoje é considerada ponto central na derrocada das relações entre Washington e seu aliado asiático.
Isso porque houve grande pressão dos EUA para libertar Raymond Davis, o matador em questão. Ele acabou pagando uma compensação financeira às famílias das vítimas e voltou para casa.
O fato de que os mortos eram agentes secretos não mudou o clamor popular contra o que foi visto como tratamento desigual para um estrangeiro hostil.
O ânimo nas ruas paquistanesas nunca foi o mesmo em relação à presença americana no país.
No Afeganistão, agora, a situação é ainda mais delicada. O militar que matou 16 civis, além do crime agravado por fatores como o assassinato de crianças e o vilipêndio de cadáver, atuava justamente em um dos pilares do esforço americano em preparação à sua retirada.
Trata-se de um programa de treinamento de líderes tribais para autodefesa -leia-se formação de milícias locais, já que o Exército afegão concentra-se em torno das poucas áreas urbanas, deixando o campo mais exposto a grupos como o Taleban.
Projeto semelhante foi medianamente bem-sucedido nas áreas tribais paquistanesas alvo de operações do Exército contra extremistas a partir de 2008. Milícias conhecidas como "lashkar" faziam as vezes dos militares para enfrentar a influência do Taleban paquistanês.
O massacre, também um "ato isolado" para a Casa Branca, não vai melhorar em nada a já péssima imagem da presença estrangeira.
O tema é muito sensível em um país acostumado a ver seus ocupantes baterem em retirada (como os britânicos, os soviéticos e, agora, o Ocidente), e iniciativas como essa tentam estabelecer pontes e garantir alguns aliados na ponta da linha no futuro.
A condução do julgamento do assassino mostrará o potencial de o incidente se tornar um novo caso Raymond Davis.

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