sábado, 4 de fevereiro de 2012

Romney não está nem aí para pobres

Favorito republicano inova ao dispensar tradicional fingimento dos políticos e admitir: menos favorecidos não o preocupam

Paul Krugman

Se você é um americano em uma maré de má sorte, Mitt Romney tem um recado para dar: ele não sente a mesma dor que você. No início desta semana, Romney disse a uma perplexa entrevistadora da CNN: "Não estou preocupado com os muito pobres. Temos uma rede de assistência voltada para essa gente". Diante das críticas recebidas, afirmou que não quis dizer aquilo que pareceu querer dizer, que suas palavras foram tiradas de contexto. Mas ficou bem claro que ele quis dizer exatamente o que disse. Quanto mais encaixamos o comentário dele no devido contexto, pior a situação fica.

Poucos dias atrás, Romney negava que os programas que ele afirma agora ser voltados para os pobres fossem capazes de proporcionar de fato alguma ajuda. No dia 22, ele afirmou que os programas sociais da "rede de assistência" - é isso mesmo, ele usou esse termo específico - apresentam um "imenso custo administrativo" e, por causa do custo dessa burocracia, "uma parte mínima do dinheiro do qual necessitam chega a eles de fato".

Essa afirmação, assim como boa parte do que Romney diz, é absolutamente falsa: os programas americanos voltados para o combate à pobreza não apresentam nem uma fração do custo administrativo e burocrático envolvido nas seguradoras de saúde particulares, por exemplo. Como documentou o Centro de Prioridades para o Orçamento e as Políticas Públicas, entre 90% e 99% dos dólares destinados aos programas da rede de segurança social chegam, de fato, aos beneficiados.

Independentemente da falsidade dessa afirmação inicial, como pode um candidato declarar que os programas sociais não surtem efeito e dizer apenas dez dias mais tarde que esses programas atendem tão bem às necessidades dos pobres que ele não se sente preocupado com a situação deles?

Levando-se em consideração essa mentira deslavada a respeito do real funcionamento dos programas sociais, qual é a credibilidade da afirmação seguinte de Romney, ao dizer que, se os programas precisarem de reparos, ele os consertará? Bem, a verdade é que a rede de segurança social precisa de reparos. Ela proporciona uma ajuda substancial - mas insuficiente - aos pobres. O Medicaid, por exemplo, oferece atendimento médico essencial para milhões de cidadãos, principalmente para as crianças, mas ainda há muito que escapa pelas fissuras no sistema: entre os americanos de renda anual inferior a US$ 25 mil, mais de um em cada quatro - 28,7% - está completamente desprovido de cobertura médica.

É claro que eles não podem compensar esta falta de cobertura com visitas às salas de emergência. Da mesma maneira, os programas de auxílio alimentar ajudam muito, mas um entre cada seis americanos abaixo da linha da pobreza sofre de "baixa segurança alimentar". Oficialmente, a definição dessa situação é uma "redução no consumo de alimentos em certos momentos do ano como decorrência da falta de dinheiro e recursos para proporcionar comida ao lar" - em outras palavras, fome.

Romney apoiou o plano do deputado Paul Ryan prevendo drásticos cortes nos gastos federais - e quase dois terços dos cortes propostos serão feitos à custa dos americanos de renda mais baixa. As diferenças apontadas por Romney entre seu próprio plano e a proposta de Ryan vão no sentido de cortes ainda mais acentuados contra os pobres. Sua proposta para o Medicaid parece envolver uma redução de 40% no financiamento em comparação à legislação atual.

De acordo com Romney, não precisamos nos preocupar com os pobres graças aos programas que não ajudam de fato os necessitados (uma mentira) - programas que, seja como for, ele pretende destruir.

Acredito em Romney quando ele diz não se preocupar com os pobres. O difícil é acreditar na afirmação dele de que está igualmente despreocupado em relação aos ricos, que estão "em boa situação". Afinal, se é mesmo isso o que ele pensa, por que Romney quer encher os ricos de dinheiro? E não se trata de pouco dinheiro. De acordo com o Centro de Políticas Fiscais, que não mantém vínculos com partidos, o plano de Romney representaria um aumento nos impostos que incidem sobre a renda dos americanos mais pobres e cortaria os impostos incidentes sobre o topo da pirâmide. Mais de 80% dos cortes em impostos seriam destinados àqueles que ganham mais de US$ 200 mil por ano, dos quais quase a metade ganha mais de US$ 1 milhão por ano. O membro médio do clube dos milionários receberia um corte na contribuição da ordem de US$ 145 mil.

Esses grandes cortes na cobrança de impostos criariam um grande rombo orçamentário, aumentando o déficit em US$ 180 bilhões por ano - e tornaria necessário o corte draconiano nos programas sociais.

O que nos traz de volta à falta de preocupação de Romney. Há algo que podemos dizer a respeito do ex-governador de Massachusetts e executivo da Bain Capital: ele está abrindo novas fronteiras na política americana. Até os políticos conservadores costumavam considerar necessário fingir que se importam com os pobres. Lembram-se do "conservadorismo benevolente"? Romney dispensou essa encenação.

No ritmo atual, é possível que logo vejamos políticos admitindo aquilo que sempre foi óbvio: que eles não se importam nem mesmo com a classe média; que não estão e nunca estiveram preocupados com a vida dos americanos comuns. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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