quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Remessa de lucros

Ruy Castro

RIO DE JANEIRO- Houve época no Brasil, 1962, por aí, em que as pessoas matavam ou morriam por causa da remessa de lucros. Eram os lucros que, ao fim do ano, as empresas estrangeiras aqui instaladas mandavam para suas sedes, quase todas nos EUA. E essas empresas eram os suspeitos de sempre: Coca-Cola, Shell, Esso, Texaco, Ford, General Motors, Gessy Lever, talvez até o Sonrisal e a pasta Kolynos. Quando um brasileiro tomava banho com Lever, lá se ia a nossa soberania pelo ralo, dizia-se.
Pela remessa de lucros, Leonel Brizola (contra) e Carlos Lacerda (a favor) ameaçavam ir às jugulares. Nos meus 14 anos, eu me sentia dividido. Por um lado, tinha fumaças de esquerda e torcia pelos nacionalistas; por outro, perguntava-me como Hollywood se arranjaria sem os meus caraminguás na bilheteria -somente "West Side Story" eu vira nove vezes naquele ano.
Bem, passaram-se décadas, e leio que, em 2011, as filiais brasileiras das multinacionais mandaram US$ 38 bilhões para o exterior -a maior remessa de lucros dos últimos 64 anos. Não deve ter sangrado cruelmente a nossa economia, porque o Brasil parece podre de rico -nem o governo do PT permitiria tal sangramento, não?
Ao mesmo tempo, nunca tantos brasileiros gastaram tanto lá fora como em 2011, em bagulhos eletrônicos, camisetas do Mickey e cachorro-quente -US$ 21 bilhões, o triplo do que os gringos deixaram aqui. Some a isto (ou subtraia) o volume de dinheiro -menor do que nunca- que os imigrantes brasileiros mandaram do exterior, e as remessas -cada vez maiores- que os estrangeiros aqui residentes enviaram para seus países.
Não faz diferença, o Brasil virou mesmo uma potência. Se a remessa de lucros deixou de ter importância, fico me perguntando se Brizola e Lacerda brigariam tanto se ainda estivessem entre nós.

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