quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Mídia do Equador lida com 'imperador', diz SIP

Sociedade Interamericana de Imprensa afirma que presidente Rafael Correa trata jornalistas como delinquentes ao conceder-lhes perdão

GUILHERME RUSSO
O Estado de S.Paulo

Apesar de o presidente equatoriano, Rafael Correa, ter pedido a revogação de penas contra o jornal El Universo, três de seus diretores e um ex-editor - e de a Justiça ter arquivado o caso ontem -, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) está preocupada com as condições da liberdade de expressão no país. "Respondem aos desígnios de um imperador magnânimo", disse ontem Claudio Paolillo, do comitê executivo da entidade.

Em nome da SIP, Paolillo afirmou que "o 'perdão' de Correa foi uma resposta às entidades de defesa de liberdade de imprensa e veículos de comunicação". "Todo o mundo estava horrorizado, ele (o presidente) não tinha outra opção para remediar o ridículo que o Equador estava passando. Teve de ceder a essa pressão", disse.

O diário equatoriano havia sido multado em US$ 40 milhões e os jornalistas Carlos, César e Nicolás Pérez, que são irmãos, e o ex-editor Emilio Palacio foram condenados a 3 anos de prisão por "injúria", após a publicação de um artigo que qualificou Correa como "ditador" e acusou o presidente de crimes contra a humanidade durante a repressão a uma revolta policial, em 2010.

O líder equatoriano também suspendeu uma ação contra os dois jornalistas autores do livro O Grande Irmão, que denuncia irregularidades em contratos de Fabricio Correa, irmão do presidente, com o governo do país.

Para Paolillo, o líder "dispôs desse subterfúgio (do perdão presidencial) como se fosse um imperador romano". "A mensagem é que ele perdoou delinquentes, que agiram de maneira errada. Mas os profissionais apenas exerceram seu direito de liberdade de expressão. E não há nada de mau nisso."

Analistas afirmam que "fatores políticos internos", como a votação presidencial prevista para fevereiro de 2013, quando Correa possivelmente tentará a reeleição, também contribuíram para o perdão aos jornalistas e ao Universo. "Ele deve ter recebido sinais de que sua credibilidade estava sendo afetada", disse à France Presse Hernán Reyes, da Universidade Andina Simón Bolívar.

"O que os cidadãos equatorianos não podem perder de vista é que se mantém o precedente de que um presidente coage a imprensa de seu país com ameaças legais", afirmou o presidente da SIP, Milton Coleman, em um comunicado oficial divulgado pela entidade. "A liberdade de imprensa é um direito humano inerente e não existe simplesmente porque um presidente deseja concedê-la como um favor especial." Emilio Palacio, um dos três jornalistas envolvidos no processo, disse ontem à noite que manterá seu pedido de asilo político aos EUA porque no Equador enfrenta outras demandas por "perseguição" de Correa.

As ONGs Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias, Repórteres sem Fronteiras e Human Rights Watch também criticaram os processos de Correa contra o Universo e os jornalistas.

O chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, disse que convidará a presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Dinah Shelton, para ir a Quito, para "que ela venha constatar que a liberdade de expressão não está em perigo" no país. / COM AFP

Nenhum comentário: