sábado, 4 de fevereiro de 2012

Golpe frustrado de Chávez faz 20 anos

Para analistas, tentativa de tomar o poder em 1992 mudou a história da Venezuela

RENATA MIRANDA

Os venezuelanos lembram hoje, com um misto de orgulho e vergonha, as duas décadas da tentativa frustrada de golpe liderada por Hugo Chávez contra o governo de Carlos Andrés Pérez. Vinte anos depois - dos quais 13 a Venezuela tem Chávez como presidente -, a democracia venezuelana está em estado de deterioração e há condições para que uma rebelião semelhante seja lançada, apontam analistas.

"A tentativa de golpe deixou vulnerável a democracia na Venezuela porque criou a consciência popular de que, caso alguém não esteja de acordo com as políticas de um governo democraticamente eleito, é legítimo tentar derrubá-lo", afirmou ao Estado, Omar Noria, cientista político da Universidade Central da Venezuela (UCV). "A democracia na Venezuela foi sequestrada por um governo autocrático, no qual todas as instituições obedecem a apenas um homem: Hugo Chávez."

Desde o fim do ano passado, o presidente venezuelano vem tentando encontrar maneiras de legitimar o golpe. Na quinta-feira, a oposição fez uma acusação formal na Organização dos Estados Americanos (OEA) contra Chávez por sua intenção de comemorar os 20 anos de sua fracassada tentativa de golpe.

Hoje, aviões e helicópteros de guerra da Força Armada Nacional Bolivariana devem cruzar os céus de Caracas durante uma parada militar para celebrar a data quando Chávez, na época tenente-coronel do Exército, tentou derrubar o governo Pérez.

A parada contará com a presença do presidente cubano, Raúl Castro, que chegou ontem a Caracas para participar da cúpula da Alternativa Bolivariana para os Povos da América (Alba).

'Necessidade'. Chávez rebateu as críticas, afirmando que "o 4 de Fevereiro foi uma necessidade histórica", no qual ele e seus camaradas militares tentaram "tirar a Venezuela do abismo". "A Venezuela não tinha saída e era necessário sacudir a pátria", disse o líder venezuelano na noite de quinta-feira durante um ato para comemorar seu 13.º ano de mandato. "Apenas pela revolução poderíamos sair do abismo no qual estávamos."

O presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, também defendeu a tentativa de golpe, afirmando que a rebelião militar "evitou um golpe de Estado de direita e a instauração de uma ditadura no país".

Noria, especialista da UCV, rejeita essas declarações e afirma que a principal diferença entre o governo de Andrés Pérez e o de Chávez é que o período anterior era democrático e respeitava os direitos humanos, diferentemente da gestão do atual líder venezuelano.

O analista político Oscar Reyes também lembra que Andrés Pérez tinha muito menos poder do que Chávez tem hoje. "Andrés Pérez era controlado pelo Congresso e até mesmo por seu próprio partido", disse Reyes. "Já Chávez, usando sua justificativa de uma revolução, na qual implica uma espécie de estado de exceção, conseguiu, muitas vezes, burlar as normas constitucionais e criar instituições em benefício de seu projeto. Isso não era possível no tempo de Carlos Andrés Péres."

Para Reyes, o 4F - como é conhecida a tentativa de golpe - foi um marco na história da Venezuela. "Foi o início do fim de uma era, de um pacto político e de um modelo de governar", afirmou. Ele explica que a tentativa de golpe foi uma espécie de "elo perdido" a partir do qual "outros elos foram construídos" - como o processo da Constituinte de 1999, o também fracassado golpe de 11 de abril de 2002 - contra Chávez -, o regresso de Chávez ao poder e as seguidas vitórias eleitorais do presidente.

Segundo Reyes, essa cadeia de eventos foi responsável por criar uma nova "textura" na política do país. "Os acontecimentos de fevereiro de 1992 e seus detalhes ajudaram a tecer a colcha de retalhos que hoje representa o novo mapa político venezuelano."

Reyes acredita que, dependendo do resultado das eleições presidenciais de 7 de outubro, existe a possibilidade de uma nova tentativa de golpe de Estado. "Supõe-se que, se a oposição de direita, representada por Henrique Capriles, saia vitoriosa. Há o risco de um golpe", disse o especialista. "No entanto, são só suposições, porque acredito que nenhum setor político na Venezuela hoje queira um golpe da direita nem um golpe da extrema esquerda."

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