domingo, 19 de fevereiro de 2012

'Fico com medo de a oposição ganhar'

Camareira venezuelana resume sentimento dos mais pobres em relação a Hugo Chávez

LOURIVAL SANTANNA
ENVIADO ESPECIAL / CARACAS - O Estado de S.Paulo

Não é preciso andar muito para encontrar a explicação do êxito de Hugo Chávez. Ela vem até o repórter, com a camareira que limpa o seu quarto, em um hotel de Caracas. Magali tem 26 anos. Chávez tem sido presidente durante a metade de sua vida. Quando ele chegou ao poder, ela era uma adolescente de 13. "Lembro até hoje a emoção que senti", recorda Magali, com os olhos marejados. "Não pude votar nele, mas gostei dele desde a primeira vez que o vi."

"Chávez se parece conosco, é um de nós. É a primeira vez que a Venezuela tem um presidente assim", continua Magali, sem parar de arrumar meticulosamente a cama. "Só que ele estudou muito, preparou-se muito. Minha irmã disse que ele lê tantos livros que se tornou uma das pessoas mais inteligentes do mundo", conta Magali, que concluiu o ensino médio.

A irmã de Magali é mãe solteira de três crianças. Por isso, recebe um benefício do governo, no valor de um salário mínimo - 1.548 bolívares, o equivalente a US$ 360, pelo câmbio oficial. Vive em um "refúgio", como são chamados os apartamentos e casas que o governo cede aos sem-teto. Ela inscreveu os filhos no programa Menino da Venezuela, que paga a ela mensalmente 400 bolívares (US$ 93) por criança.

Magali, que ganha um salário mínimo por mês ("pagam muito bem", diz ela), tinha um barraco na favela do Coche, no sul de Caracas. O local, porém, foi considerado área de risco e por isso ela também foi transferida para um refúgio, enquanto aguarda uma casa da Misión Vivienda, programa habitacional lançado por Chávez em 2011. Seu irmão comprou uma TV de LCD num mercado popular, outro programa do governo, que vende eletrodomésticos chineses a preço de custo.

"Às vezes, no metrô, ouço as pessoas dizendo que Chávez é negro, pobretão, ladrão", diz a camareira. "Mas são pessoas de classe média. Não digo que Chávez não roube. Todos roubam. Só que ele dá aos pobres." Mas ela acrescenta que viu num documentário da Telesur, TV do governo, que, quando Chávez assumiu, em 1999, foi visitar a estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) e propuseram-lhe desviar o dinheiro. "Chávez disse: 'Não estou aqui para roubar, mas para mandar'", relata, a camareira, admirada.

Magali procura não se mostrar sectária. "Eu não acho que os candidatos da oposição sejam ruins. Só acho que, se eles quiserem competir com Chávez, terão de se preparar, como ele." Além disso, analisa ela: "Os pobres são a maioria. Enquanto só a classe média gostar da oposição, ela não terá chance".

Em seguida, porém, a camareira vai descrevendo um por um os principais líderes oposicionistas de forma bastante negativa. Começa pelo governador de Miranda, Henrique Capriles Radonsky, vencedor das primárias disputadas há uma semana: "Perdão, senhor, pelo uso da palavra, mas ele é corrupto".

Ela recorda que Manuel Rosales, ex-governador de Zulia, que disputou a eleição presidencial em 2006, "teve de ir embora porque foi pego roubando". "Desculpe, mas não dá para votar nele." Rosales exilou-se no Peru declarando-se perseguido por Caracas e apoiou o atual governador de Zulia, Pablo Pérez, nas primárias do dia 12.

Mesmo sendo mulher, a camareira não simpatiza com a deputada María Corina Machado, que também disputou as prévias. "A gente percebe que ela tem um rancor contra Chávez", diz Magali. "Parece que se tornou uma coisa pessoal, ela quer derrota-lo."

Ex-dirigente da ONG Súmate, que atua na defesa da democracia, María Corina foi personagem de um desenho animado veiculado pela TV estatal, no qual aparecia de joelhos recebendo uma valise cheia de dólares do Tio Sam e dizendo: "Como é gostoso trair a pátria". A Súmate foi processada pelo governo por traição e conspiração, por ter recebido US$ 53 mil do National Endowment for Democracy, organismo suprapartidário americano que patrocina projetos pró-democracia no mundo todo.

A única vez em que Magali e sua família votaram contra Chávez foi no referendo de 2009 sobre a reforma da Constituição, que pretendeu aprofundar o "socialismo bolivariano". "A oposição espalhou que o Estado viria nas casas das pessoas buscar as crianças", lembra a camareira. "Ficamos com medo. Imagine se viessem buscar meus três sobrinhos?" Chávez foi derrotado. "O problema foi que ele não explicou direito o que queria."

O celular de Magali toca repetidas vezes. É a sua supervisora, mas a camareira não atende. Discreta e modesta, ela quer terminar de falar sobre Chávez, que chama de "meu presidente". "Quando chega o dia das eleições, parece que meu coração vai sair pela boca", conta Magali. "Fico com muito medo de a oposição ganhar."

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