segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Euro, pensar o impensável

Luiz Carlos Bresser-Pereira

É melhor que os europeus pensem seriamente na alternativa de extinguir a moeda comum de 17 países

Na China, em 1979, era "impensável" caminhar para o capitalismo, e no entanto Deng Xiaoping pensou e se antecipou à estagnação que ocorreu na União Soviética. Na Argentina, em 2001, era impensável terminar com o "plan de convertibilidad"; De La Rua curvou-se a esse impensável, e o custo foi uma crise brutal. Na zona do euro, hoje, é impensável extinguir o euro, e no entanto é melhor que os europeus pensem seriamente nessa alternativa. A criação do euro foi um erro, porque não havia um Estado por trás dele, e porque ele se transformou em uma moeda estrangeira para cada um dos 17 Estados que o adotaram -uma moeda que, nas crises, eles não podem emitir nem desvalorizar.
O impensável é muitas vezes puro medo e conservadorismo de governantes sem visão. Nesta grande crise do euro, a Grécia tornou-se um país insolvente, mas declarou-se "impensável" reestruturar sua dívida; quando a dívida foi reestruturada com um desconto de 21%, tornou-se impensável aumentar essa porcentagem; quando o desconto foi aumentado para 50%, tornou-se impensável o socorro do Banco Central Europeu a ela e aos demais países e bancos, mas um pouco depois o BCE passou a comprar de forma moderada títulos públicos e inundou o sistema bancário europeu de liquidez. O impensável revelou-se, afinal, a solução.
"Seria a desordem e o caos", gritam os defensores do impensável. Não creio. A crise dos países do sul da Europa desencadeada em 2010 é de balanço de pagamentos: foi causada pela sobrevalorização do euro implícita que se expressa em salário médio incompatível com o nível de produtividade. Teve como consequência elevados deficits em conta corrente seguidos por elevado endividamento externo, principalmente privado. A dívida pública já estava alta porque, diante da crise financeira global de 2008, todos os países haviam adotado política fiscal expansiva.
A extinção implicará alguns riscos, mas o custo de se tentar resolver uma crise causada por deficits em conta corrente através de redução dos deficits fiscais já foi muito grande, mesmo em termos de sacrifício da democracia, e continuará a sê-lo por muitos anos, para todos os países, inclusive para a Alemanha.
Do ponto de vista prático, não haveria grandes problemas. Seria naturalmente necessário imprimir novas cédulas. E, em determinado momento, em vez de retornar às antigas moedas, os países em conjunto transformariam o euro em um "euro nacional": o euro alemão, o euro francês, e assim por diante. Em seguida, os países com elevados deficits em conta corrente e altas dívidas externas desvalorizariam sua moeda. O que provocaria a queda dos salários e alguma inflação. Mas esta é uma forma muito mais humana e mais eficiente de praticar a austeridade e diminuir os salários do que aquela que está sendo praticada hoje: através da recessão e do desemprego.
No caso do euro, não é apenas o medo da inflação que torna sua extinção impensável. É também o medo que ela "desestruture" a União Europeia. Mas não há esse risco; a UE é o mais extraordinário caso de construção política e social que conheço, e só ganhará se agora der um passo atrás. Haverá espaço, no futuro, para muitos passos adiante.

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