terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Curso superior não tem elevado renda, diz estudo do IBGE

Nos últimos 8 anos, ganho de quem fez faculdade teve 0,3% de aumento real, contra 30,6% dos com nível fundamental

Número de trabalhadores com diploma universitário cresceu 63%, o que, para economista, contribuiu para a queda na renda

MARIANA SCHREIBER
DE SÃO PAULO


O diploma de curso superior não tem assegurado, necessariamente, crescimento do poder de compra nos últimos anos, mostra recente estudo feito pelo IBGE.
Na média, a renda dos trabalhadores com diploma universitário ficou praticamente estagnada de 2003 a 2011.
Nesse período, o salário médio desse grupo teve ganho real (acima da inflação) de apenas 0,3%, indo a R$ 3.850,52.
Na outra ponta, a remuneração média dos trabalhadores que têm até oito anos de escolaridade subiu 30,6% acima da inflação nesses últimos oito anos.
O estudo do IBGE abrange as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Porto Alegre.
Para o economista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) João Saboia, a estagnação da renda média entre graduados mostra que não há um apagão generalizado de profissionais qualificados.
Segundo o IBGE, o número de trabalhadores com curso superior cresceu 63% nos últimos oito anos.
O economista do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) Naércio Menezes recorre à lógica da oferta e da demanda para afirmar que o número maior de profissionais com nível superior limitou o ganho de renda nesse grupo.
Mas isso varia de acordo com as áreas de formação, dizem os dois economistas.
Saboia analisou o perfil dos cargos formais gerados para profissionais com ensino superior em 2010 e notou que a carência de mão de obra é mais concentrada em áreas de perfil técnico, como física, química, engenharia, matemática e biotecnologia.
A demanda por esses profissionais vem crescendo com a expansão dos setores de construção civil, infraestrutura e petróleo, explica.
HUMANAS X EXATAS
Segundo levantamento feito pela da Folha a partir de dados do Ministério da Educação, apenas 13,6% dos alunos que concluíram a universidade entre 2001 e 2010 se graduaram em cursos de exatas como os listados acima.
A grande maioria (67,6%) veio de áreas de humanas, como direito, educação, ciências sociais e artes. Saboia observa que parte desses profissionais não está conseguindo empregos em suas áreas.
Em seu estudo, ele descobriu também que 16% das novas vagas ocupadas em 2010 por pessoas com curso superior eram cargos de assistentes e auxiliares administrativos. Outros 4,7% eram postos técnicos de nível médio na indústria e no comércio.
"Tem muita gente se formando, mas não exatamente no que o mercado está precisando, então essas pessoas não estão sendo valorizadas", afirma Saboia.
Presidente da Asap (consultoria que faz recrutamento de profissionais com salários entre R$ 6.000 e R$ 15 mil), Carlos Eduardo Dias afirma haver um apagão de profissionais qualificados em todas as áreas.
Em algumas, segundo ele, não faltam pessoas graduadas, mas faltam profissionais com boa formação.
"O nosso ensino superior ainda não tem a qualidade que deveria ter. Falta qualidade na formação, e sobra vaga no mercado", disse.
Dias reconhece, porém, que o problema é mais grave em áreas técnicas. Segundo ele, os salários oferecidos a engenheiros cresceram entre 30% e 50% acima da inflação nos últimos cinco anos.

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