sábado, 4 de fevereiro de 2012

Crepúsculo dos piratas

Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - A fim de confirmar uma teoria, pedi a minha funcionária Marcia que pesquisasse pela cidade em busca da versão pirata do filme "As Aventuras de Agamenon, o Repórter", em cartaz nas telas e ainda não lançado em DVD. Marcia deu um giro pelos camelôs mais respeitados de Madureira e, dos domínios da Portela e do Império Serrano aos entornos do Mercadão, ouviu deles que a cópia pirata existia, mas estava esgotada. Até que, já perto da linha do trem, achou um "Agamenon". Preço: R$ 3.
Naturalmente, este foi só um exercício acadêmico porque, se quisesse, eu poderia ter pedido à minha neta Olivia, de quatro anos, que "baixasse" o filme para mim na internet -o que ela faria enquanto botava sua boneca para dormir. E que, aproveitando o embalo, "baixasse" também os concorrentes ao próximo Oscar, já legendados, dublados, em Dolby, surround e 3D. Tudo, claro, grátis.
Na verdade, já não há o menor motivo para passear pelos camelôs e assuntar o que há de novo em DVDs, assim como muitos já deixaram de fazer com CDs. Para que perder tempo comprando uma cópia pirata idêntica ao original do último disco do Chico ou do Caetano, se é possível "baixar" de graça somente as faixas que interessam ou tocam no rádio? E por que esse fetiche pelo objeto se os encartes dos discos, hoje, nem texto têm?
"Baixar" filmes e discos sem pagar já é uma prática tão corriqueira que, um dia, até os incompetentes para a tecnologia mais elementar, como eu, a dominarão. Quando isto acontecer, temo que uma vasta categoria profissional -a dos camelôs especializados em pirataria- caia no desemprego ou, pior, no crime.
Juntar-se-ão aos produtores de cinema, compositores e cantores, que continuarão a fazer filmes e discos - só que por amor à arte, já que não terão como viver deles.

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