quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Presidente escanteia esquerda e mira quem poderá reelegê-lo

Análise

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA


Barack Obama usou o privilegiado espaço que só os presidentes têm de falar à nação em horário nobre nas principais redes de TV dos EUA para tentar realinhar a seu lado algumas das parcelas da sociedade que foram vitais para sua vitória na eleição de 2008.
Seu discurso ao Congresso sobre o Estado da União teve alvos claríssimos: as classes médias e os não filiados a partidos políticos.
Retoricamente, não chegou a ser brilhante, como muitas vezes foi na campanha de quatro anos atrás. Mas Obama deixou claríssima sua estratégia para se reeleger em novembro.
Ele não vai inflamar os contingentes liberais do seu partido e à esquerda dele, os mais decepcionados com o desempenho basicamente conservador na Presidência de quem eles haviam escolhido como seu campeão.
Anteontem, o presidente atacou ricos, reacionários, especuladores, mas com suavidade e com a promessa de que não irá passar da conta na regulação da economia.
Mas foi muito enfático na defesa da importância das classes médias, que sempre foram o principal esteio do tecido social americano e que vêm sendo ameaçadas há pelo menos três décadas pelo crescimento desmesurado da diferença de rendimentos entre os mais ricos e os mais pobres no país.
O presidente respondeu, sem grande ênfase mas com nitidez, tanto aos clamores do movimento "Ocupe Wall Street" quanto à biografia de seu mais possível adversário em novembro, o milionário e financista Mitt Romney.
Ao propor um aumento de 30% na taxação de renda dos que ganham mais de US$ 1 milhão por ano, ameaçar universidades que continuarem a cobrar altas anuidades com fim de ajuda federal, propor linhas de crédito especiais para renegociação de hipotecas habitacionais, o presidente escolhe um lado que é o da maioria da população.
Quando acena com doação de terras federais para empreendimentos de energia solar e eólica, faz um afago aos grupos antiestablishment que, mesmo aborrecidos com ele, jamais votarão em outro candidato -mas podem não ir votar, o que lhe seria prejudicial na disputa.
As perspectivas de reeleição para ele sempre foram boas, mas são melhores do que nunca no início de 2012.
A economia dá modestos sinais de melhora, o partido da oposição se estraçalha numa luta fratricida a que ele assiste de camarote, o mundo está relativamente em paz, embora as ameaças continuem rondando a estabilidade em várias regiões.
O ambiente está muito longe de ser compatível com os sonhos dos que elegeram o presidente em 2008. Mas é melhor do que o recebido por ele de George W. Bush. E ninguém minimamente confiável à maioria dos eleitores se apresenta para substituí-lo.

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